Capítulo 13 · Como o autismo aparece no dia a dia
Motricidade: hipotonia, coordenação, dispraxia, escrita, marcha e corpo
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Em uma página
A motricidade esteve na descrição do autismo desde o começo (Asperger falava em "desajeitamento motor" em 1944; Wing o manteve em 1981), saiu dos critérios diagnósticos e voltou pela porta dos fundos: o DSM-5-TR lista o transtorno do desenvolvimento da coordenação entre as condições coocorrentes, e revisões clínicas recentes incluem "transtornos motores" entre as comorbidades que concentram sofrimento e uso de serviços. Na prática, o corpo autista aparece de várias formas: tônus baixo e postura "mole", desajeitamento grosso e fino, dificuldade de planejar movimentos novos (dispraxia), caligrafia lenta e dolorosa, marcha e postura atípicas, tiques e, em adolescentes e adultos, lentificação e bloqueio de iniciativa que podem chegar à catatonia. Autistas não falantes descrevem um corpo que não obedece à intenção, e usam isso para explicar por que são lidos como incapazes.
A teoria que mais organiza esse campo é a de Jean Ayres: praxia (ideação, planejamento, execução) depende de percepção tátil e proprioceptiva e de esquema corporal; dispraxia não é falta de força nem de inteligência. A nosologia de Miller separa um "transtorno motor de base sensorial" em postural e dispráxico. O capítulo distingue o que a base sustenta (vocabulário, mecanismos propostos, prática clínica de TO, relatos em primeira pessoa) do que ela não cobre (epidemiologia motora, hipermobilidade, marcha na ponta dos pés, atividade física), e termina com uma lista explícita de lacunas.
O que é e como se manifesta
Vocabulário. Convém separar quatro coisas que se misturam no dia a dia. Tônus é a tensão de repouso do músculo; "hipotonia" é tônus baixo, que aparece como postura caída, cansaço rápido para ficar sentado ereto, apoiar a cabeça na mão. Coordenação é a execução fluida de movimentos já aprendidos. Praxia é a capacidade de conceber, planejar e executar uma ação nova: Ayres insistia em distinguir praxia de simples coordenação, porque a criança dispráxica pode ter força e inteligência e ainda assim não conseguir aprender a andar de bicicleta ou se vestir. O manual de Bundy e Lane decompõe a praxia em ideação, planejamento motor e execução e a aproxima do DCD. Estereotipias e tiques são movimentos repetitivos, tratados em outro capítulo; aqui importam porque alguns autistas descrevem o stimming como forma de sentir onde o corpo está.
Na infância. A descrição clássica de Attwood para o perfil verbal: marcha e postura estranhas, dificuldade com bola, caligrafia lenta, tiques, com implicações para esportes e escola; a edição de 2007 dedica um capítulo a "Movement and Coordination" cobrindo marcha, motricidade fina, caligrafia, esportes, tiques e catatonia. O grupo de Yale propôs, no fim dos anos 1990, que um perfil de QI verbal maior que o de execução, com dificuldades visuoespaciais e motoras, distinguisse a síndrome de Asperger do autismo "de alto funcionamento"; a hipótese não se confirmou como marcador, mas registra que o desajeitamento era parte da identidade clínica do perfil. Ayres, do lado da integração sensorial, lista tônus baixo, dificuldades de coordenação, integração bilateral pobre, dominância manual indefinida e insegurança gravitacional como sinais de processamento vestibular ineficiente. Kranowitz traduz isso para pais: a criança que tropeça, quebra lápis, se joga, não aprende a vestir.
Um ponto que a base registra e que vale sublinhar para pais: desenvolvimento motor típico não exclui autismo. O relato brasileiro de Paiva descreve marcos motores dentro do esperado ("do sentar ao andar") que tranquilizaram a família antes do diagnóstico.
Oral-motor. A motricidade da boca é uma frente própria: Ernsperger e Stegen-Hanson argumentam que muitos "não gosto" de crianças seletivas são "não consigo" (mastigar, manejar texturas), e pedem avaliação oral-motora por fono ou TO antes de qualquer programa comportamental. O manual da SBP inclui a apraxia de fala da infância entre os diferenciais de linguagem. Programas de regulação usam a boca como canal (mastigar, soprar, sugar).
Na adolescência e na vida adulta. A literatura adulta trata a motricidade como "invisível": o segundo volume de Kerches tem capítulos sobre "dificuldades motoras invisíveis" e alterações posturais, tratando dispraxia e postura como parte do quadro e não como achado acessório. O polo grave é a catatonia: Shah descreve lentificação, dificuldade crescente de iniciar, completar e interromper ações, congelamento no meio de movimentos, dependência de prompts para tarefas antes autônomas, posturas mantidas, surgindo tipicamente na adolescência ou no início da vida adulta em pessoas previamente verbais e funcionais, e evoluindo devagar. O DSM-5-TR tem o especificador "com catatonia".
Nos não falantes. Três memórias por soletração descrevem a mesma coisa de dentro: Higashida fala de um corpo que é um conjunto de partes que ele não controla, e de pular para o corpo "virar um só"; Mukhopadhyay descreve mãos que não apontam, lábios que não formam palavras, e estereotipias como modo de localizar o corpo; Kedar sustenta que a ABA mede output motor e conclui sobre cognição, produzindo um falso negativo permanente para quem tem apraxia. Grandin apoia a leitura de que a aparência de ausência de compreensão pode esconder uma mente presa num corpo com problemas de controle motor. A autoria desses textos é contestada (ver "Divergências"), mas o fenômeno que descrevem, dissociação entre intenção e execução, é o mesmo que Ayres chamou de dispraxia.
O que a ciência diz
Classificação. O DSM-5-TR não inclui motricidade nos critérios A e B, mas lista o transtorno do desenvolvimento da coordenação e a catatonia entre as condições coocorrentes, ao lado de epilepsia, TDAH e sono. A CID-11 inclui estereotipias motoras entre as manifestações do domínio repetitivo e nada mais sobre motricidade. O seminário Lancet de 2018 menciona "transtornos motores" entre as condições coocorrentes que devem ser rastreadas. Gillberg vai mais longe: na lógica ESSENCE, a maioria das crianças autistas tem TDAH, DCD ou deficiência intelectual associados, e a combinação TDAH+DCD (que ele chamou de DAMP nos anos 1980) é frequente; "quando encontrar um, procure os outros".
O modelo de Ayres. A teoria propõe que praxia se constrói sobre percepção tátil, proprioceptiva e vestibular e sobre o esquema corporal; a dispraxia do desenvolvimento seria falha nessa base, não no músculo nem na inteligência. O livro técnico de 1972 derivou síndromes de análises fatoriais, entre elas "disfunção de integração postural e bilateral" (reflexos posturais imaturos, dificuldade de cruzar a linha média, dominância manual tardia) e "apraxia do desenvolvimento". Bundy e Lane (2020) mantêm a estrutura modulação / discriminação / praxia, com instrumentos para cada domínio: SIPT (17 subtestes), observações clínicas estruturadas (tônus postural, extensão prona, flexão supina, nistagmo pós-rotatório, movimentos oculares, bilateralidade) e a nova geração EASI em desenvolvimento. Miller formalizou o "Sensory-Based Motor Disorder" com dois subtipos, postural e dispraxia, e Kranowitz e Delaney o levaram aos pais. Nenhuma dessas categorias entrou no DSM-5 nem na CID-11; a Academia Americana de Pediatria recomendou em 2012 não usar SPD como diagnóstico.
Modelos concorrentes. O DIR de Greenspan trata planejamento motor, sequenciamento e tônus como parte do perfil biológico individual ("I") que a intervenção deve respeitar, com a hipótese de que a dificuldade central do autismo seria ligar afeto a ação motora. A revisão de Leekam sobre comportamentos repetitivos separa comportamentos sensório-motores repetitivos (mais frequentes em crianças pequenas e com QI mais baixo, diminuindo com a idade) de insistência na mesmice, e associa os primeiros à hiper e hiporreatividade sensorial.
Evidência de intervenção. É aqui que a base é mais clara e menos animadora. Bundy e Lane concluem por suporte à ASI com fidelidade em desfechos individualizados e evidência fraca para abordagens sensoriais isoladas. As guidelines da AOTA classificam a evidência para ASI como emergente e inconsistente, com estudos pequenos, e insuficiente ou negativa para coletes ponderados e escovação. A metanálise Project AIM incluiu "funcionamento motor" entre os domínios de desfecho e "sensorial" entre os tipos de intervenção, e não encontrou efeito consistente para intervenções sensoriais; apenas abordagens do desenvolvimento e NDBIs mantiveram efeito em análises restritas a RCTs sem viés de detecção. A respeito de fisioterapia, educação física adaptada, esporte, treino de caligrafia e marcha na ponta dos pés, a base não tem nenhum estudo. Isso não significa que não existam; significa que este capítulo não pode avaliá-los.
O que os autistas dizem
A voz autista sobre o corpo tem dois registros. O primeiro é o da pressão profunda e da propriocepção como regulação: Grandin inventou a squeeze machine aos 18 anos para obter pressão regulada que o abraço humano não dava, e descreve a hipersensibilidade tátil e auditiva lado a lado com a busca de pressão; Heller, adulta com defensividade sensorial, chega à dieta sensorial e ao trabalho de Ayres depois de décadas de rótulos psiquiátricos. Esse registro casa com a clínica: o trabalho pesado e a pressão profunda são, para Bundy, Kranowitz e Biel, o input mais organizador e menos arriscado.
O segundo registro é o do corpo que não obedece, vindo dos não falantes. Higashida descreve pular como a forma de o corpo responder à emoção e ficar inteiro, e a lentidão de resposta como falha de comando, não de compreensão. Mukhopadhyay explica o girar e o bater das mãos como propriocepção, uma forma de saber onde o corpo está. Kedar reinterpreta "comportamentos" lidos como desinteresse (a mão que pega o objeto errado, a impulsividade motora) como fenômenos neurológicos involuntários. O estudo participativo de Kapp sobre stimming vai na mesma direção, mas pelo lado da regulação, não do controle motor.
Onde convergem: na recusa de ler desajeitamento ou lentidão como preguiça, má vontade ou falta de inteligência.
Divergências e controvérsias
Dispraxia como núcleo ou como comorbidade. Para os não falantes e seus defensores, a apraxia é o centro do autismo com alto suporte e a razão pela qual a cognição é subestimada. Para o DSM e a CID, a motricidade é coocorrência. Avaliação do autor da síntese: as duas coisas podem ser verdadeiras para pessoas diferentes; o que a base não tem é um estudo que diga em quantos autistas não falantes a apraxia explica o quadro. A posição mais segura é a de Grandin e de Kedar na parte não contestada: presumir competência e não inferir cognição a partir de output motor.
A autoria dos relatos por soletração. As três memórias de não falantes nasceram de métodos (RPM, prancha de letras) que associações profissionais classificam como não recomendados; em testes controlados de comunicação facilitada, as mensagens vinham do facilitador, e nenhum dos três autores foi testado de forma independente. Isso enfraquece o uso desses textos como evidência de apraxia, mas não anula a hipótese, que é compatível com a clínica de Ayres e com o que fonos e TOs observam. O leitor deve tratar os relatos como testemunho plausível de autoria não verificada.
SPD e transtorno motor de base sensorial como diagnóstico. Miller fez campanha pelo reconhecimento e perdeu no DSM-5; a AAP recomendou não usar o rótulo isoladamente; Kranowitz recuou de "disorder" para "differences" na 3ª edição. Para o pai brasileiro, a consequência prática é que "dispraxia" ou "transtorno postural" no relatório da TO descrevem um perfil, não um código de CID; o código, quando existe, é o de DCD.
Terapia de integração sensorial: funciona para o motor? A tradição diz que sim, em metas individualizadas, com fidelidade; as revisões externas dizem que a evidência é pequena e de baixa qualidade; o guia de Volkmar é cauteloso a ponto de parecer desdenhoso para famílias que se beneficiam de TO. Avaliação: a distinção que importa é entre ASI com fidelidade (criança lidera, equipamento suspenso, desafio na medida certa, metas mensuráveis) e "coisas sensoriais" avulsas (colete, escovação, bola de apertar sem plano). A primeira merece uma tentativa com metas claras e prazo; a segunda não deve consumir dinheiro de família.
Marcos motores precoces como sinal de alerta. As Diretrizes do Ministério da Saúde agrupam indicadores comportamentais de TEA em motores, sensoriais, rotinas, fala e emocional; o manual da SBP inclui tônus e reflexos no exame físico e "dispraxia" entre as comorbidades; mas a memória de Paiva lembra que marcos motores normais não excluem o diagnóstico.
Na prática
Para um adulto autista
- Dar nome ao que sempre esteve lá. Cansaço para ficar sentado ereto, letra ilegível, tropeços, aversão a esportes de bola, dificuldade de aprender uma coreografia ou um gesto novo no trabalho: tudo isso tem vocabulário (tônus, praxia, coordenação bilateral) e não é "falta de jeito" moral.
- Propriocepção como ferramenta de regulação. Trabalho pesado (carregar, empurrar, subir escada), pressão profunda (cobertor pesado, abraço firme pedido) e input oral são a primeira linha nas dietas sensoriais adultas. O Alert Program oferece a estrutura de "identificar, experimentar, escolher" que serve a um adulto mesmo com material infantil.
- Sinais de alerta de catatonia. Lentificação progressiva, precisar de "empurrão" para começar o que antes fazia sozinho, travar em portas, inversão do sono, depois de transição ou estresse acumulado: procurar avaliação específica e tratar primeiro o ambiente e as demandas, com medicação como adjuvante.
- Corpo e saúde. Se há dor articular, luxações fáceis, tontura ao levantar, mencionar autismo e hipermobilidade ao médico; a base registra a sobreposição em relatos e listas, não em ensaios. Sobre exercício, a base só tem o relato de Kurchak, que atribui ao exercício físico um papel na recuperação da ansiedade; não há revisão de atividade física em autistas adultos.
- O que evitar. Ler lentidão motora como falta de esforço; aceitar "tratamentos" sensoriais sem metas; usar a motricidade como desculpa para não pedir ajuda com escrita ou tarefas manuais no trabalho.
Para a criança autista (e para os pais)
- Pedir avaliação motora e sensorial separada da diagnóstica. Uma avaliação completa inclui o domínio sensório-motor: tônus, coordenação, praxias, esquema corporal. Quem avalia é, no Brasil, a terapeuta ocupacional (com Sensory Profile 2, SPM, observações clínicas, SIPT quando disponível) e, quando há, a psicomotricista ou fisioterapeuta. Gillberg lembra de procurar TDAH e DCD junto.
- Em casa: brincar que organiza. Balanços, rolar, pular, carregar, empurrar, massa, areia; seguir o que a criança busca e dar mais daquilo de forma segura. Para a criança dispráxica, Ayres é explícita: ambiente rico, criança escolhe, "desafio na medida certa", nunca drill passivo. O Floortime adapta a interação à criança com dificuldade de planejamento motor.
- Escola e escrita. Biel e Peske descrevem como postura, caligrafia, recreio e educação física expõem a diferença sensório-motora, e listam acomodações: assento alternativo, pausas de movimento, trabalho pesado antes de tarefa de mesa; Brites dedica uma seção à grafomotricidade na escola. A base não tem estudo que compare treino de caligrafia com uso de teclado; a decisão, hoje, é clínica e escolar, não de evidência. O que a base sustenta com clareza é que escrever à mão não deve ser a barreira que impede a criança de mostrar o que sabe (o princípio de Kedar e Grandin sobre não inferir cognição a partir de output motor).
- Esportes. Attwood registra o custo social de ser o último escolhido no jogo de bola e sugere atividades individuais ou de interesse; o Alert Program lembra que o "just right" da educação física é alto, não calmo.
- Alimentação. Antes de qualquer programa comportamental para seletividade, avaliar o oral-motor e descartar causa médica.
- O que evitar. Colete de peso e escovação sem treinamento e sem plano; suprimir movimento repetitivo que serve de localização corporal; forçar input vestibular em criança com insegurança gravitacional.
- Sinais de alerta. Perda de habilidades motoras já adquiridas, lentificação marcada na adolescência, dor articular recorrente, recusa alimentar com engasgo: cada um pede avaliação específica, não "esperar o tempo da criança".
Brasil
- Quem faz o quê. Os documentos oficiais colocam a terapia ocupacional como responsável pela lente sensorial e de autocuidado, e listam fisioterapia e educação física na equipe interdisciplinar. As Diretrizes de 2014 preveem avaliação por equipe com TO e uso da CIF para atividades e participação. A psicomotricidade, tradição forte no Brasil, aparece como área de avaliação "quase ausente da literatura brasileira de autismo" no manual do IPq.
- Planos de saúde. Desde a RN 539/2022 a cobertura é de qualquer método indicado pelo médico para F84, sem limite de sessões de psicologia, fono, TO e fisioterapia; o STJ fixou em 2026, no Tema 1.295, que limitar sessões de terapia multidisciplinar prescritas a paciente com TEA é abusivo. Isso inclui fisioterapia e TO para dificuldades motoras.
- Literatura nacional. Kerches (vol. Nenhum livro de Ayres, Bundy, Miller, Kranowitz ou Biel tem edição brasileira.
Perguntas em aberto
- Qual a prevalência de DCD, hipotonia e dispraxia em autistas, por idade e nível de suporte? A base não tem o número.
- A dispraxia explica o desempenho de quantos autistas não falantes? Sem teste controlado de autoria e sem estudos de apraxia nessa população, a hipótese fica entre o relato e a clínica.
- Intervenção: ASI com fidelidade melhora coordenação e praxia, ou só metas de participação? Fisioterapia, educação física adaptada e esporte têm efeito? A base não tem um único ensaio sobre isso.
- Caligrafia versus teclado: quando trocar e com que custo?
- Andar na ponta dos pés: frequência, significado (sensorial, vestibular, ortopédico), quando tratar. A base é totalmente silenciosa.
- Hipermobilidade, Ehlers-Danlos e disautonomia: mecanismo compartilhado com o autismo ou coocorrência? A base só tem relatos e listas.
- Catatonia: por que surge na adolescência, como diferenciar de burnout e de depressão, e qual o papel dos prompts externos a longo prazo.
- Como os modelos cognitivos dominantes (codificação preditiva, monotropismo) incorporam o motor, que hoje ignoram.