Divergentes

Capítulo 1 · Entender o autismo

O que é autismo: definição, espectro, prevalência, causas e mitos

20 min de leitura

Em uma página

Autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, presente desde cedo e por toda a vida, definida clinicamente por duas dimensões: diferenças persistentes na comunicação e interação social, e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, incluindo a sensorialidade. Não é doença: não há biomarcador, cura nem gene único; é um construto clínico consensual que descreve um modo de processar o mundo, não um conjunto de comportamentos.

Chama-se "espectro" porque o quadro raro de Kanner é só uma ponta de um contínuo que atravessa todos os níveis de QI e de linguagem; não é uma régua de "leve" a "grave", mas um espaço de várias dimensões, provavelmente fracionáveis.

A prevalência de referência é cerca de 1% no mundo e 1 em 31 crianças de 8 anos nos EUA. O aumento das últimas décadas é, pela leitura dominante, efeito de identificação, não de epidemia; a sociologia acrescenta a desinstitucionalização como motor.

A causa é majoritariamente genética: herdabilidade entre 64% e 91% em gêmeos e cerca de 80% em dois milhões de pessoas de cinco países, com ambiente familiar compartilhado quase nulo. Isso enterra a "mãe geladeira" e as vacinas, e esvazia o "todo mundo é um pouco autista": há um contínuo de traços, mas o diagnóstico exige os dois domínios com impacto real na vida.

O paradigma da neurodiversidade lê tudo isso como variação humana, não patologia; quem adere a ele não nega dificuldades, muda a pergunta: de "como normalizar" para "o que apoiar e adaptar".

O que é e como se manifesta

Condição, não doença

O DSM-5-TR e a CID-11 concordam no essencial. O critério A exige dificuldades persistentes nos três subitens da comunicação social (reciprocidade socioemocional, comunicação não verbal, relacionamentos); o B, ao menos dois de quatro padrões restritos e repetitivos (movimentos ou fala estereotipados, insistência na mesmice, interesses intensos, hiper ou hiporreatividade sensorial). O C diz que os sinais estão presentes no desenvolvimento precoce, mas "podem não se manifestar plenamente até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas, ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas"; o D exige prejuízo clinicamente significativo. A CID-11 segue a mesma díade, sem contagem de itens, e estratifica por deficiência intelectual e linguagem funcional em vez de níveis de suporte.

Isso é fiel à descrição original. Os dois traços cardinais de Kanner em 1943, a "solidão autista extrema" e a "insistência na mesmice", são em essência os dois domínios do DSM-5; ele também registrou reações a sons, seletividade alimentar e "ilhas de habilidade", recuperados pela nosologia só em 2013, e já afirmava uma "incapacidade inata, biologicamente provida". A tese biológica estava lá desde o início.

Por que "condição do neurodesenvolvimento" e não "doença"? Não há patologia cerebral grosseira, marcador diagnóstico nem mecanismo único; as diferenças de neuroimagem são sutis e de grupo. O Primer da Nature Reviews usa de propósito a palavra "construto". A revisão do JAMA define a condição como comum, fortemente hereditária, heterogênea e quase sempre acompanhada de outras condições; o DSM-5-TR registra cerca de 70% com ao menos um transtorno mental co-ocorrente e 40% com dois ou mais. Gillberg vai além: na primeira infância, a coocorrência entre autismo, TDAH, transtorno de coordenação, deficiência intelectual e linguagem é a regra, e o rótulo inicial é provisório.

Beardon dá a formulação que mais serve a um adulto autista: autismo não é comportamento observável, é um modo de processar; o que o mundo lê como "rigidez" é resposta lógica a um ambiente ilegível. Sua "equação de ouro", autismo + ambiente = desfecho, lembra que a variável modificável é o ambiente. Prizant chega ao mesmo lugar pela clínica infantil: ecolalia, stimming, rotinas e interesses intensos são estratégias de regulação de um sistema nervoso que vive mais imprevisibilidade e medo, não sintomas a extinguir.

Por que "espectro"

Em 1979, Wing e Gould levantaram todas as crianças de Camberwell conhecidas pelos serviços (cerca de 900 na triagem, 132 avaliadas em profundidade). Encontraram 74 com prejuízo social grave, cerca de 21 por 10.000, contra cerca de 5 por 10.000 para o autismo de Kanner estrito. Quase todas tinham, junto com a dificuldade social, dificuldades de comunicação e imaginação mais padrões repetitivos, a "tríade", presente em todos os níveis cognitivos. Separar o "verdadeiro" autismo do resto era artificial; dois anos depois Wing trouxe Asperger para o mesmo contínuo, e em 1996 consolidou: o espectro atravessa QI e linguagem, muda ao longo da vida e tem causa biológica.

Asperger descrevera em 1944, a partir de quatro casos e de mais de 200 crianças vistas, o perfil que Kanner não cobria: crianças falantes, inteligência preservada, fala pedante, interesses intensos, desajeitamento motor e sensibilidades sensoriais, com "continuidade com a normalidade". O DSM-IV e a CID-10 criaram categorias separadas; vinte anos de pesquisa não distinguiram de modo confiável "Asperger" de "autismo de alto funcionamento", e o DSM-5 fundiu tudo num espectro com níveis de suporte e especificadores. A cooperação documentada de Asperger com o regime nazista deu à comunidade mais uma razão para aposentar o epônimo.

Há um segundo sentido de "espectro": a continuidade com a população geral. Frith fala em "fenótipo ampliado", traços subclínicos em parentes. Tick mostra que traços dimensionais na população têm herdabilidade semelhante à do diagnóstico. Happé, Ronald e Plomin argumentam que os domínios da tríade se correlacionam só modestamente e são influenciados por genes largamente diferentes: o "autismo clínico" seria a coincidência, numa mesma pessoa, de dificuldades em domínios parcialmente independentes. Consequência: dois autistas podem ter perfis quase opostos.

Infância e vida adulta

Na infância, os sinais são consistentes entre 12 e 24 meses (apontar, olhar compartilhado, resposta ao nome, brincadeira simbólica), o diagnóstico é confiável a partir dos 2 anos nas apresentações claras, e a idade mediana de diagnóstico nos EUA ainda fica em torno de 4 anos. Na vida adulta, o que muda não é o autismo, são as demandas e o mascaramento: a cláusula do critério C é o reconhecimento oficial do masking e a base do diagnóstico tardio; a CID-11 discute o diagnóstico de adultos por história retrospectiva. Beardon descreve a identificação tardia como alívio, luto e reinterpretação da história, e avisa: identificação sem adaptação do ambiente é injusta. Os capítulos 15 e 22 aprofundam.

O paradigma da neurodiversidade

Singer cunhou "neurodiversity" na tese de 1998, observando numa lista de e-mails um movimento de autistas adultos comparável ao feminista e ao gay, e propôs a analogia com a biodiversidade. Walker deu a formulação mais citada: o "paradigma da patologia" pressupõe um modo certo de o cérebro funcionar; o "paradigma da neurodiversidade" trata a diversidade de mentes como variação natural e valiosa e lê o conflito em torno dela como dinâmica de poder. Abreu separa o que o debate confunde: conceito, movimento e paradigma.

Aderir à neurodiversidade não é negar dificuldade. No levantamento de Kapp com 657 participantes, quem conhecia o conceito via o autismo como identidade e opunha-se à cura, mas valorizava tanto quanto os demais as habilidades adaptativas e reconhecia dificuldades reais; a resposta a "déficit, diferença ou ambos?" foi "ambos". Pellicano e den Houting levaram o argumento à psiquiatria infantil: a ciência do autismo opera como "ciência normal" kuhniana, com foco em déficit, no indivíduo e não no contexto, e com estreiteza de quem define as perguntas; o paradigma alternativo é compatível com necessidades de suporte.

O que a ciência diz

Quantos autistas existem

A revisão encomendada pela OMS reuniu 71 estudos de 34 países (2012 a 2021) e encontrou prevalência mediana de 100 por 10.000, ou 1%, com intervalo de cerca de 1,1 a 436 por 10.000; razão homem:mulher mediana de 4,2 (de 1,8 a 16) e 33% com deficiência intelectual. A revisão de 2012 tinha mediana de 62 por 10.000. A variação se explica mais por método, critérios e acesso do que por diferenças reais; 1% é estimativa conservadora para planejamento, e países de baixa e média renda, incluindo a América Latina, quase não têm dados.

A rede ADDM do CDC faz vigilância por revisão de registros de crianças de 8 anos em sites selecionados. No ciclo de 2020, a prevalência foi de 27,6 por 1.000 (1 em 36), ante 1 em 44 em 2018 e 1 em 150 em 2000; variou de cerca de 23 por 1.000 em Maryland a cerca de 45 na Califórnia (1 em 22); meninos foram 3,8 vezes mais identificados; cerca de 38% das crianças com dados de QI tinham deficiência intelectual; e, pela primeira vez, a prevalência em crianças negras, hispânicas e asiáticas superou a de brancas, lido como redução de subdiagnóstico. O ciclo de 2022, publicado em 2025 com 16 sites, chegou a 32,2 por 1.000 (1 em 31), aumento de cerca de 22%, razão de 3,4 e variação de 1 em 103 (Laredo, Texas) a 1 em 19 (Califórnia). A ADDM mede "prevalência de identificação": depende de acesso, não é amostra nacional, e fica entre o 1% global e o 3% dos levantamentos de pais (NSCH). As revisões clínicas sintetizam em "1% a 2%".

Dois detalhes. A razão de sexo cai de 4:1 para cerca de 3:1 quando se corrige o viés de reconhecimento, e os manuais admitem subdiagnóstico de mulheres. E a proporção com deficiência intelectual vem caindo à medida que a identificação se amplia; parte da estimativa histórica dependia do instrumento: crianças autistas pontuaram, em média, 30 pontos percentis acima nas Matrizes de Raven do que nas escalas Wechsler, e várias classificadas com DI pelo QI padrão ficaram na média ou acima no Raven.

Por que os números subiram

A leitura dominante é que o aumento reflete ampliação dos critérios, substituição diagnóstica (crianças antes rotuladas como deficiência intelectual ou transtorno de linguagem), consciência pública e serviços, sem excluir contribuições pequenas de fatores reais como idade parental e prematuridade. Frith resume a trajetória de 4 por 10.000 nos anos 1960 para cerca de 1 em 100 e desmonta a epidemia com os estudos de larga escala da Dinamarca, do Reino Unido e do Japão sobre a MMR. Camberwell já apontava: quanto mais ampla e populacional a busca, maior a prevalência.

A sociologia acrescenta um mecanismo. Para Eyal, a explosão de diagnósticos é um efeito tardio da desinstitucionalização da deficiência intelectual a partir dos anos 1970: fechadas as instituições, surgiu um espaço de escolas, serviços e intervenção precoce, povoado por pais, terapeutas e profissionais híbridos, e "autismo" virou a categoria que organiza essa rede. Países e estados onde a desinstitucionalização foi profunda têm taxas mais altas; onde não aconteceu, como a França, mais baixas. Silverman mostra o outro lado: ao longo de cinquenta anos, o amor parental foi trabalho epistêmico, com pais observando, financiando pesquisas e fundando associações. Silberman faz da ampliação de Wing e do DSM-IV, não das vacinas, o centro da explicação.

De onde vem: genética e ambiente

Tick, Bolton, Happé, Rutter e Rijsdijk reuniram sete estudos de gêmeos (mais de 6.000 pares) e estimaram herdabilidade entre 64% e 91%, com ambiente compartilhado pequeno ou nulo; o estudo californiano de Hallmayer (2011), com herdabilidade de cerca de 37% e ambiente compartilhado de cerca de 55%, era discrepante e explicável por viés de amostragem. Bai replicou por outro desenho: 2.001.631 nascidos entre 1998 e 2007 na Dinamarca, Finlândia, Suécia, Israel e Austrália Ocidental, 22.156 diagnósticos, herdabilidade de 80,8% (de cerca de 51% na Finlândia a 87% em Israel), efeito materno entre 0,4% e 1,6% e ambiente compartilhado não significativo.

Duas ressalvas dos próprios autores: herdabilidade é estatística populacional sobre variância, não "quanto do autismo de uma pessoa é genético"; e não identifica genes nem mecanismos. A arquitetura é mista: variantes raras de novo de grande efeito (em cerca de 10% a 20% dos casos clínicos, mais com deficiência intelectual), síndromes monogênicas e um grande componente poligênico comum; mais de uma centena de genes conhecidos, nenhum específico. Fatores ambientais existem, com efeitos pequenos e sobretudo pré-natais e individuais: idade parental avançada, prematuridade extrema, valproato. Vacinas: sem associação, com evidência robusta.

Os mitos, um a um

Vacinas. A hipótese nasceu do artigo de Wakefield na Lancet em 1998, depois retratado, e da variante do timerosal; Donvan e Zucker e Silberman reconstroem a fraude e o dano sanitário. Schreibman, em 2005, já concluía que não havia suporte epidemiológico. Silverman explica, sem desdém, por que a hipótese fazia sentido para pais que viram regressão após uma consulta de rotina e como a resposta arrogante da medicina reforçou a desconfiança, e é clara em que ela não se sustentou. O argumento de fundo é genético: se o ambiente compartilhado é quase nulo, não há espaço para uma causa que todas as crianças recebem. O mito segue vivo: em 2025 o secretário de Saúde dos EUA apresentou o 1 em 31 como prova de epidemia ambiental, e Herbert, neurologista de Harvard, deu verniz acadêmico ao timerosal.

A "mãe geladeira". A expressão é de Kanner, que em 1949 falou em "geladeiras que não descongelam"; Bettelheim a transformou em teoria causal em The Empty Fortress (1967): a criança, lendo na mãe o desejo de que ela não exista, "desiste" de agir, como o prisioneiro de campo de concentração; o tratamento era separá-la dos pais. Best-seller, com edição brasileira em 1987, sem base empírica. Rimland já o refutara três anos antes: irmãos criados pelos mesmos pais são tipicamente neurotípicos; o início é precoce demais; o quadro é uniforme entre culturas; nenhuma criança com autismo clássico foi encontrada em orfanatos. Kanner recuou em 1969; os gêmeos de Folstein e Rutter em 1977 e a epidemiologia de Wing fecharam a questão.

"Todo mundo é um pouco autista". A frase mistura um fato e um erro. O fato: existe um contínuo de traços, o fenótipo ampliado é real e a herdabilidade dos traços é semelhante à do diagnóstico. O erro: o diagnóstico não é "ter alguns traços", é a combinação dos dois domínios, desde cedo, em múltiplos contextos, com impacto real. Beardon é direto: autistas não estão "um pouco" no espectro, e todo mundo não está. Sinclair dá a razão de fundo: o autismo é pervasivo, colore toda experiência; não é apêndice nem casca. Na prática a frase serve para minimizar: se todo mundo é um pouco, ninguém precisa de ajuste.

Cura e "recuperação". Não há medicação para os traços centrais; risperidona e aripiprazol são aprovados só para irritabilidade. As revisões alertam contra quelação, dietas restritivas e câmara hiperbárica; a SBP conclui que dietas sem glúten e caseína não têm embasamento e que quelação é danosa. Schreibman monta a galeria das "ficções": comunicação facilitada, secretina, terapia de abraço, megavitaminas. Rimland, o mesmo que derrubou a mãe geladeira, passou as décadas seguintes promovendo B6, dietas, antifúngicos e quelação e fundou o DAN!, com mortes documentadas. Até um guia brasileiro pró-intervenção intensiva afirma que a cura não existe, embora cite sem fonte que 3% a 5% "saem do espectro".

O gênio. Rain Man fixou o savant; só "uma pequena parte" dos autistas tem habilidades prodigiosas. Mendonça chama isso de dupla distorção: déficit ou gênio, nunca a pessoa.

O que os autistas dizem

O texto fundador é de 1993. Sinclair nega três metáforas: o autismo não é um apêndice (não há "uma criança normal escondida atrás do autismo"), não é uma parede (a conexão falha porque os pais tentam pelo canal deles, e aprender o do filho "dá trabalho e o resultado vai ser estranho") e não é morte (o luto é pelo filho imaginado). Desejar a cura é desejar outra pessoa. É a formulação pioneira do double empathy: a dificuldade é mútua. Walker transforma a intuição em paradigma e insiste que a mudança passa pela linguagem: "sou autista", "neurodivergente", "neurotípico" num lado; "pessoa com autismo", "sofre de", "sintoma" no outro. Bottema-Beutel e colegas, com Kapp entre os autores, mostram que a maioria dos adultos autistas prefere "autista", que "risco de autismo" enquadra a condição como doença e que "comorbidade" pressupõe uma doença de base; este livro adota essas escolhas.

Onde a voz autista concorda com a clínica: na biologia. A genética alta serve aos dois lados: a quem vê condição a tratar e a quem vê variação estável, não causada por criação, vacinas ou mães. A comunidade também usa a ciência contra a ciência: a pesquisadora autista Michelle Dawson, sem diploma, coassinou o estudo da subestimação da inteligência autista.

Onde diverge: no que fazer com o conhecimento. A comunidade é ambivalente com a pesquisa genética por medo de usos eugênicos e critica que a etiologia absorva recursos que iriam para suporte; pede pesquisa sobre serviços, saúde mental e vida adulta, enquanto o financiamento vai para biologia básica. Sobre os números, a leitura é inversa à do pânico: mostram que o autismo é comum e que a sociedade precisa se organizar.

No Brasil, a primeira pessoa chegou tarde: Mendonça em 2019, definindo o autismo como "variação na conectividade cerebral", e Abreu em 2022, com a cronologia do atraso.

Divergência interna: os adeptos da neurodiversidade de Kapp reconhecem déficits e apoiam intervenções voltadas à qualidade de vida, menos radical que a troca total de paradigma de Walker. E essas amostras são de autistas verbais com internet; quem tem deficiência intelectual ou não fala está pouco representado.

Divergências e controvérsias

Epidemia ou identificação? A epidemiologia diz identificação, sem excluir contribuição pequena de fatores reais. Eyal diz que "identificação" é exatamente o que uma matriz institucional produz; epidemiologistas respondem que critérios e serviços já explicam sem a tese forte. O discurso da "epidemia ambiental" ressurgiu em 2025. Minha avaliação: variação de 1 em 103 a 1 em 19 no mesmo país e ano é incompatível com causa biológica nova e compatível com diferença de acesso; Eyal e os epidemiologistas discordam menos do que parece, e a tese sociológica ganha força por explicar o caso francês. Fica em aberto a prevalência "real".

Quanto é genético? Hallmayer contra Tick; Herbert contra Bai. Tick mostra que a discrepância se desfaz corrigido o viés; Bai replica sem depender de gêmeos. Herbert propõe um autismo "de corpo inteiro", inflamatório, modificável por dieta e redução de toxinas. Avaliação: a parte mecanística (comorbidades médicas subtratadas, neuroinflamação como tema de pesquisa) é legítima; a prática não tem suporte e devolve aos pais um fardo que a genética havia tirado. Ler ao lado de Schreibman.

O espectro é grande demais? A Lancet Commission propôs a designação administrativa "profound autism" para pessoas de 8 anos ou mais com deficiência intelectual (QI abaixo de cerca de 50) ou linguagem mínima, entre 18% e 48% dos autistas conforme a amostra (um estudo do CDC chegou a 26,7%), para dar visibilidade a um grupo apagado pela narrativa do espectro "leve". Autodefensores responderam que é alto/baixo funcionamento com outro nome, que fala mínima não implica DI e que os critérios são instáveis na infância. Avaliação: a invisibilidade é real, mas a solução reintroduz a dicotomia que o DSM-5 abandonou por não ser confiável; a estratificação da CID-11 por DI e linguagem funcional faz o mesmo trabalho sem o rótulo.

Patologia ou paradigma? Walker pede troca de paradigma; Kapp mostra que a maioria vive em "diferença e déficit"; Pellicano propõe reforma da ciência; o Primer e a Comissão mantêm a moldura médica com gestos de abertura. Fletcher-Watson e Happé ficam no meio: mantêm as teorias cognitivas, mas as submetem a comentários autistas e admitem que teorias deficitárias produziram práticas ruins. Avaliação: para um adulto autista e pai, a posição de Kapp é a mais habitável; a de Walker, a mais útil para desaprender a "opressão internalizada".

Quem cunhou "neurodiversidade"? Singer reivindica a autoria; um artigo de 2024 de Botha, Chapman, Kapp, Walker e outros defende construção coletiva nas listas; Singer tornou-se contestada após posts de 2023 considerados transfóbicos. Abreu centra a narrativa nela de propósito.

Na prática

Para um adulto autista

  • A "todo mundo é um pouco autista", a resposta curta é a de Beardon: autismo é processamento, não comportamento; o diagnóstico exige os dois domínios, desde cedo, com impacto. A longa admite o contínuo de traços e explica por que isso não dilui o diagnóstico.
  • Herdabilidade de cerca de 80% significa que seu autismo não foi causado por nada que você ou seus pais fizeram, e que ter um filho autista era probabilidade alta, não culpa; a SBP cita recorrência entre irmãos próxima de 20%.
  • O critério C é seu aliado: "mascarado por estratégias aprendidas" está no manual. Se um profissional diz que você "não parece autista", está descrevendo o masking.
  • Use a "equação de ouro" para negociar ambiente: o que se pede é ajuste, não correção.
  • Vocabulário: "autista", "condição do neurodesenvolvimento", "condições co-ocorrentes", "nível de suporte".

Para a criança autista (e para os pais)

  • Nada que vocês fizeram causou o autismo; mãe geladeira e vacinas estão fora da evidência.
  • Não existe cura. Lista de alerta: quelação, dietas sem glúten e caseína sem doença celíaca ou alergia confirmadas, secretina, ocitocina, megavitaminas, câmara hiperbárica, "protocolos biomédicos". As perguntas de Schreibman valem para qualquer tratamento: há estudos controlados? publicados onde? quem lucra?
  • O diagnóstico é clínico; exames não confirmam nem afastam, e os instrumentos são apoio, não critério.
  • Espere coocorrência (TDAH, ansiedade, epilepsia, sono, sensorial) e peça avaliação de todos os domínios.
  • Um QI baixo no laudo pode estar medindo o instrumento: pergunte se houve teste não verbal de raciocínio.
  • Antes de qualquer meta de "reduzir comportamento", pergunte "por quê". O luto pelo filho imaginado, se vier, se faz entre adultos, longe da criança e por tempo limitado.
  • "Espectro" não é régua: "leve" porque fala pode esconder necessidades; "grave" porque não fala pode apagar capacidades.

Brasil

A Lei 12.764/2012 resolve numa frase a condição jurídica: "a pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais" (art. 1º, § 2º). A definição do art. 1º espelha o rascunho do DSM-5, mas usa "ou" entre os dois critérios e ignora o sensorial; as diretrizes priorizam estudos epidemiológicos, base da inclusão do autismo no Censo (Lei 13.861/2019), e desde 2025 o diagnóstico de adultos e idosos.

Não há estudo nacional de prevalência robusto; o 1% da OMS é a referência, e a lacuna latino-americana de Zeidan é crítica direta ao país. Um neurologista registra a frase de um gestor do Ministério da Saúde em 2012: como priorizar o autismo "quando ninguém nem sabe quantos autistas existem no país?". A SBP ainda cita 1 em 150, 1 em 68 e 1 em 58.

Os mitos têm lugar peculiar aqui. A fortaleza vazia teve edição brasileira em 1987, e a herança lacaniana manteve variantes da leitura psicogênica em serviços públicos até os anos 2010. A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde de 2015 defende a convivência de leituras psicanalíticas, cognitivistas e neurobiológicas e apresenta psicanálise e ABA lado a lado sem gradação de evidência; traz reflexão rara sobre a "banalização do diagnóstico" gerar "epidemias", mas escreve que "um indivíduo com TEA não é um autista". A pediatria segue a tradição norte-americana, trata o autismo como "pervasivo e permanente, não havendo cura", desmonta dietas e quelação e recomenda materiais da Autism Speaks. A disputa "atenção psicossocial versus reabilitação" é o eixo das políticas; a crítica de Lacerda é o polo pró-evidência mais articulado, lida pela comunidade autista como argumento para a segregação.

A neurodiversidade chegou cerca de duas décadas atrasada, por barreira de língua, hegemonia psicanalítica, comunidades virtuais dominadas por pais e raridade do diagnóstico adulto. O discurso biomédico de dietas e "protocolos" ainda circula muito; o guia de pais mais vendido da década desmonta vacina e mãe geladeira, mas usa "portadores de TEA" e não dialoga com adultos autistas. O capítulo 27 trata dos direitos.

Perguntas em aberto

  • Qual é a prevalência "real"? A ADDM mede identificação, a OMS mistura métodos, e não há dados de adultos nem do Brasil.
  • O que está no ambiente não compartilhado? Cerca de 20% da variância inclui exposições pré-natais, acaso, erro de medida e mutações de novo, quase nada mapeado; interação gene-ambiente não foi examinada.
  • Autismo é uma coisa ou várias? Tríade fracionável e pleiotropia puxam em direções opostas; a esperança de subtipos genéticos não se cumpriu.
  • A tese de Eyal nunca foi atualizada para o DSM-5 nem testada no Sul global.
  • Como medir bem-estar definido pelos próprios autistas em quem não pode se autorrelatar?
  • O que explica a variação de 1 em 103 a 1 em 19 no mesmo país? "Diferença de serviços" é descrição, não explicação.