Capítulo 2 · Entender o autismo
História do conceito: de Kanner e Asperger ao DSM-5, à CID-11 e ao movimento autista
20 min de leitura
Em uma página
O autismo como categoria clínica tem pouco mais de oitenta anos, e quase tudo o que se discute sobre ele (o que é, quem é, quem fala por quem) foi decidido em meia dúzia de momentos. Em 1943, Leo Kanner descreveu onze crianças com "solidão autista extrema" e "insistência na mesmice" e afirmou que era uma incapacidade inata. Em 1944, Hans Asperger descreveu em Viena uma "psicopatia autista" mais ampla, falante e hereditária; em 1925, Grunya Sukhareva já havia descrito um quadro quase idêntico em Moscou, e ninguém a citou. A observação de Kanner sobre pais frios virou, com Bettelheim, a teoria da "mãe-geladeira"; Rimland a derrubou em 1964 e fundou o ativismo de pais, mas abriu a porta ao mercado de curas. Lovaas fez do autismo alvo de modificação de comportamento intensiva, com aversivos, e produziu o "47% recuperados" que ainda sustenta a prescrição de 40 horas semanais. Wing e Gould mostraram em 1979 que o autismo de Kanner era uma minoria dentro de um continuum; Wing resgatou Asperger em 1981 e inventou o "espectro" que o DSM-5 (2013) e a CID-11 (2022) consolidaram. Em 2018, Czech e Sheffer provaram que Asperger cooperou com a "eutanásia" infantil nazista, e o epônimo caiu. Desde 1992, autistas organizados (Sinclair, ANI, Singer, ASAN) construíram a ideia de que o autismo é um modo de ser, não uma casca a remover. A história não é de progresso linear: é uma disputa contínua sobre quem define o autismo, e ela está aberta.
O que é e como se manifesta
Este capítulo não trata de um traço, mas de uma categoria: como "autismo" passou de palavra emprestada de Bleuler (retraimento esquizofrênico) a diagnóstico, a espectro, a identidade. A pergunta útil é: o que, do meu laudo e do laudo do meu filho, é descoberta e o que é herança de uma época?
Quase tudo tem data. Os dois domínios do DSM-5 são, em essência, os dois traços cardinais de Kanner, "aloneness" e "sameness". A ideia de espectro que atravessa todos os níveis de QI e linguagem vem de Camberwell. A sensorialidade só entrou nos critérios em 2013, embora Kanner registrasse reações a aspirador e batedeira e seletividade alimentar em 1943, e Asperger, hipersensibilidade a sons, cheiros e texturas em 1944. A cláusula de que os sinais "podem ser mascarados por estratégias aprendidas" é do DSM-5. A preferência por "autista" tem um texto fundador de 1999. E o rótulo "Asperger" existiu formalmente só entre a CID-10 (1992) e o DSM-5 (2013).
Para um adulto diagnosticado tarde, a história explica por que ninguém o viu antes: até os anos 1980 o autismo era raro, infantil, mudo e associado à deficiência intelectual; adultos verbais com dificuldades sociais eram "esquisitos" ou "esquizoides". Para o pai de uma criança autista, explica de onde vêm as frases dos consultórios: "recuperação", "indistinguível dos pares", "40 horas por semana", "não chore pelo filho que não veio".
O que a ciência diz
Três descrições, três cidades
Kanner publicou "Autistic Disturbances of Affective Contact" na Nervous Child em 1943, a partir de onze crianças (oito meninos, três meninas) atendidas entre 1938 e 1943 em Johns Hopkins. O caso 1, "Donald T.", chegou com uma carta de 33 páginas do pai; Donvan e Zucker o identificaram como Donald Triplett, que morreu em 2023 aos 89 anos vivendo de modo independente na própria cidade. Kanner separou o quadro da esquizofrenia infantil (a solidão existia "desde o início") e da deficiência intelectual (havia "ilhas de habilidade") e concluiu por uma incapacidade inata, "biologicamente dada", de contato afetivo. O artigo é ambíguo: a conclusão é biológica, mas a descrição dos pais como intelectuais e "pouco calorosos" semeou a leitura psicogênica que o próprio Kanner alimentou em 1949 ("geladeiras que não descongelam") e de que só recuou em 1969 ("eu vos absolvo como pais").
Asperger publicou "Die 'Autistischen Psychopathen' im Kindesalter" em 1944, a partir de quatro casos (todos meninos) e da afirmação de ter visto mais de 200 crianças semelhantes; uma palestra de 1938 já usava o termo. "Psicopatia", no alemão da época, significava anomalia constitucional de personalidade. Ele descreveu o "pequeno professor", interesses especiais intensos, desajeitamento motor, sensibilidades sensoriais e um olhar que "não encontra" o outro; defendeu que o traço era hereditário e estável, aparecia nos pais, e que "uma pitada de autismo" seria essencial à ciência e à arte; propôs uma pedagogia explícita que aproveitasse os interesses. O texto ficou desconhecido fora da área germanófona por quase quarenta anos; o mundo anglófono o leu pela tradução comentada de Uta Frith em Autism and Asperger Syndrome (1991).
A prioridade não é de nenhum dos dois: Grunya Sukhareva descreveu em 1925, em Moscou, seis meninos com "psicopatia esquizoide" num quadro praticamente idêntico, traduzido por Sula Wolff só em 1996.
A "descoberta independente" também é relativa: Georg Frankl e Anni Weiss, da clínica de Asperger, estavam na equipe de Kanner entre 1938 e 1943. Silberman sugere que Kanner conhecia o conceito amplo e escolheu o estreito; historiadores consideram a tese exagerada. O consenso: Kanner defendeu por décadas uma definição estreita, Rimland a reforçou ao insistir no síndrome "puro", e isso atrasou o espectro.
Viena nazista
A imagem de Asperger como pediatra que protegia "seus" meninos do regime foi construída no pós-guerra, sustentada por Lorna Wing e amplificada por Silberman (2015). Donvan e Zucker, em 2016, já haviam exposto documentos que o ligavam ao sistema. Em 2018, dois trabalhos independentes derrubaram a lenda: o artigo de Herwig Czech na Molecular Autism e o livro de Edith Sheffer. Com prontuários do Hospital Infantil de Viena e da clínica Am Spiegelgrund, mostram que Asperger nunca foi filiado ao partido, mas integrou organizações afiliadas, usou linguagem de higiene racial, assinou encaminhamentos de crianças (Herta Schreiber, de dois anos, e Elisabeth Schreiber, entre outras) ao Spiegelgrund, onde quase 800 crianças foram mortas, e participou de uma comissão em Gugging. A defesa de Dean Falk (2019) foi rebatida por Czech; um editorial de Baron-Cohen, Klin, Silberman e Buxbaum resumiu o consenso, e o próprio Silberman reconheceu os achados.
Sheffer vai além: argumenta que o conceito de "psicopatia autista" nasceu dentro da psiquiatria nazista, que avaliava crianças pelo Gemüt (sentimento comunitário) e pela utilidade ao Volk, de modo que o diagnóstico era, na origem, triagem entre integráveis e descartáveis. Alguns historiadores acham a tese forte demais, já que Asperger usava categorias anteriores ao regime e Kanner formulou algo parecido no mesmo ano.
A era da culpa e sua demolição
Nos EUA, a psicanálise transformou a observação de Kanner em teoria causal. The Empty Fortress (1967), de Bruno Bettelheim, diretor da Orthogenic School de Chicago e sobrevivente de Dachau e Buchenwald, propôs que o autismo era a defesa extrema do bebê diante de uma mãe que desejava que ele não existisse, comparou a criança ao prisioneiro de campo e reivindicou recuperações em cerca de 85% dos casos, número nunca verificado. O tratamento era a "parentectomia". Após sua morte, ex-alunos relataram agressões, e a biografia de Richard Pollak (1997) documentou credenciais infladas. Silverman recusa tratá-lo como charlatão isolado: era produto de uma cultura psicanalítica em que o "amor terapêutico" dos cuidadores substituía o dos pais.
A demolição veio de um pai. Bernard Rimland publicou Infantile Autism em 1964, com prefácio do próprio Kanner, e desmontou a psicogênese: irmãos criados pelos mesmos pais eram típicos; o início era precoce demais para ser reação; nenhuma criança com autismo clássico aparecia em orfanatos; a frieza dos pais podia ser traço hereditário compartilhado. Rimland fundou a National Society for Autistic Children (1965) e inaugurou o pai-pesquisador que Silverman e Eyal analisam como motor da história; os gêmeos de Folstein e Rutter (1977) e a epidemiologia de Wing fecharam a questão. O lado sombrio: dos anos 1970 em diante Rimland promoveu megavitaminas, dietas, quelação e secretina, fundou o Defeat Autism Now! (1995) e defendeu a hipótese das vacinas; houve mortes por quelação.
Lovaas e a modificação de comportamento
Ivar Lovaas, na UCLA, aplicou a análise do comportamento ao autismo. Nos anos 1960 usou choque elétrico, retratado em "Screams, Slaps and Love" (Life, 1965); o ME Book (1981) recomendava "não!" alto, tapa na coxa e contenção, e assumia que, sem intervenção, a criança "não é uma pessoa no sentido psicológico". O estudo de 1987 comparou 19 crianças com cerca de 40 horas semanais de terapia um-a-um por dois anos ou mais com 19 em 10 horas ou menos e 21 sem o programa; relatou que 9 das 19 (47%) concluíram a 1ª série em classe regular com QI médio, contra 2% dos controles, e usou a palavra recovery. Não houve randomização, o critério de idade mental mínima excluiu as crianças com atraso mais profundo, o desfecho era colocação escolar e o grupo experimental recebeu aversivos. A replicação randomizada e sem aversivos de Smith, Groen e Wynn (2000) obteve efeitos menores e nenhuma "recuperação" equivalente; revisões Cochrane classificam a evidência de EIBI como de baixa qualidade. Mesmo assim, "40 horas" virou prescrição padrão e base de litígios nos EUA, impulsionada pela memória de conversão de Catherine Maurice. A mesma tecnologia foi aplicada ao "Feminine Boy Project" (Rekers e Lovaas, 1974); o caso de Kirk Murphy, que se suicidou adulto, é citado como prova de que o método serve a qualquer norma que o adulto escolha.
Wing, Gould e o espectro
O ponto de virada é o estudo de Camberwell, sul de Londres. Wing e Gould triaram cerca de 900 crianças menores de 15 anos conhecidas pelos serviços, avaliaram 132 e encontraram 74 com prejuízo social grave: cerca de 21 por 10.000, contra cerca de 5 por 10.000 para o autismo de Kanner estrito (17 crianças), a cifra aceita desde Lotter (1966). Em praticamente todas havia também prejuízo de comunicação e de imaginação, substituída por atividades repetitivas: a "tríade de prejuízos". As crianças sem o quadro completo de Kanner não eram "menos autistas" de modo útil; o padrão era o mesmo, variando em gravidade e QI. Daí os subtipos sociais (aloof, passive, active-but-odd) e a conclusão de que separar o "verdadeiro" autismo era artificial. Wing, mãe de uma filha autista e cofundadora da National Autistic Society (1962), pensava em serviços: que crianças "não kannerianas" não ficassem sem apoio.
Em 1981, "Asperger's syndrome: a clinical account" apresentou o pediatra vienense ao leitor anglófono com 34 casos próprios, rejeitou "psicopatia", cunhou o nome e corrigiu o original: a condição aparecia em meninas, podia haver atraso de linguagem e deficiência intelectual, e havia sobreposição com o autismo clássico. Wing nunca defendeu Asperger como entidade separada; defendeu o continuum, mas reconheceu a utilidade prática do rótulo. A tríade estruturou a CID-10 (1992), o DSM-IV (1994), a ADI-R e o ADOS; o livro de 1996 consolidou o termo "espectro". A psicologia cognitiva britânica, com a teoria da mente de 1985 e a coerência central fraca de Frith, forneceu o aparato explicativo da era.
Do DSM-IV ao DSM-5 e à CID-11
Rutter depurou os critérios de Kanner para a definição que entrou no DSM-III (1980), ainda como "autismo infantil". O DSM-IV (1994) e a CID-10 (1992) criaram o guarda-chuva dos "transtornos invasivos do desenvolvimento": transtorno autista, Asperger, TID-SOE, desintegrativo e Rett. Vinte anos de pesquisa não distinguiram de forma confiável Asperger de "autismo de alto funcionamento": critérios divergentes (Gillberg, Szatmari, CID-10, DSM-IV), a regra de precedência do DSM-IV que esvaziava a categoria, a hipótese do perfil de aprendizagem não verbal que não se confirmou; Lord et al. (2012) mostraram que os subtipos não eram aplicados de forma confiável entre centros.
O DSM-5 (2013) fundiu os cinco diagnósticos em um, reduziu a tríade a uma díade (a própria Wing aceitou), incluiu a hiper ou hiporreatividade sensorial no critério B, afrouxou o início antes dos 3 anos, criou níveis de suporte e especificadores, permitiu o duplo diagnóstico com TDAH e criou o Transtorno da Comunicação Social para o "resíduo" dos TID-SOE; uma cláusula de grandfathering converteu os diagnósticos antigos. McPartland, Reichow e Volkmar (2012) alertaram para perda de sensibilidade em adultos, mulheres e pessoas com QI alto; a perda real foi pequena, sobretudo de ex-TID-SOE. O DSM-5-TR (2022) não mudou os critérios, mas explicitou "all of the following" no critério A e reescreveu o texto sobre sexo, gênero e camuflagem. A comunidade autista, via Kapp e Ne'eman, fez lobby na revisão, inclusive pela sensorialidade.
A CID-11, em vigor desde 1º de janeiro de 2022, fez a mesma unificação (6A02), mas estratifica por transtorno do desenvolvimento intelectual e por linguagem funcional (6A02.0 a 6A02.5), sem níveis 1-3 e sem contagem de sintomas, numa abordagem prototípica; Rett saiu do capítulo de saúde mental; "invasivo" e "retardo mental" foram abandonados. Parte da comunidade viu nos subcódigos um retorno velado à divisão alto/baixo funcionamento; a Comissão Lancet usa exatamente DI e linguagem para propor a designação "profound autism".
Epidemia ou ampliação
O aumento de prevalência, de cerca de 4 por 10 mil nos anos 1960 para cerca de 1 por 100 em 2008, é explicado por ampliação dos critérios, inclusão de Asperger e de autismo com deficiência intelectual, substituição diagnóstica, consciência pública e serviços, não por vacinas. Baird et al. (2006), com o desenho de Camberwell, encontraram cerca de 1%. Eyal acrescenta um motor institucional: o crescimento é efeito tardio da desinstitucionalização da deficiência intelectual a partir dos anos 1970; onde ela foi profunda (Escandinávia, Reino Unido), as taxas são maiores; onde foi tardia (França), menores.
O que os autistas dizem
A primeira autobiografia autista a circular amplamente foi Emergence (1986), de Temple Grandin, com prefácio de Rimland e enquadramento editorial de "recuperação"; Grandin nunca diz que deixou de ser autista, descreve adaptação e trabalho. O movimento organizado começa em 1992, quando Jim Sinclair, Kathy Grant e Donna Williams fundam a Autism Network International, incomodados com conferências em que autistas eram objeto, não sujeito. Em 1993, em Toronto, Sinclair leu "Don't Mourn for Us", cerca de 2.500 palavras dirigidas a pais, em três negações: o autismo não é um apêndice ("não há uma criança normal escondida atrás do autismo"), não é uma parede impenetrável (a conexão falha porque os pais tentam só pelo canal deles, formulação pioneira do double empathy) e não é morte (o luto é pelo filho imaginado, e deve ser elaborado longe da criança real). Desejar a cura é desejar outra pessoa no lugar do filho. O ensaio saiu no mesmo ano que Let Me Hear Your Voice, a memória de "recuperação" via Lovaas que virou texto de recrutamento da ABA domiciliar: os dois polos nasceram juntos. O Autreat (1996-2013) criou regras de acessibilidade social (crachás de disponibilidade, ambientes de baixo estímulo) que inspiraram o Autscape britânico. Em 1999, "Why I Dislike 'Person First' Language" deu o argumento que ainda organiza a escolha por "autista": só se sente necessidade de separar uma característica da pessoa quando se decidiu que ela é negativa; Kenny et al. (2016), com mais de 3 mil respondentes no Reino Unido, confirmaram a preferência de adultos autistas por "autistic" e a de profissionais por "person with autism".
O termo "neurodiversidade" surgiu nas listas de e-mail dos anos 1990 (InLv, de Martijn Dekker) e foi formalizado por Judy Singer na tese de 1998, com a primeira menção impressa por Harvey Blume na The Atlantic no mesmo ano; Singer, filha de uma sobrevivente de Auschwitz, mãe de uma filha autista e "em algum lugar do espectro", o propôs por analogia com a biodiversidade e como nome de um movimento comparável ao feminista e ao gay. Nick Walker deu ao termo a forma teórica mais citada: "paradigma da patologia" (existe um jeito certo de o cérebro ser; divergir é ter algo errado) contra "paradigma da neurodiversidade" (a diversidade de mentes é natural e valiosa; as dinâmicas em torno dela são de poder), com a advertência de Audre Lorde de que as ferramentas do mestre não desmontam a casa do mestre. A antologia Loud Hands (ASAN, 2012) preservou os documentos fundadores e inverteu o "quiet hands" das terapias, tratando o stimming como linguagem e a "indistinguibilidade" de Lovaas como ideologia de apagamento. A coletânea de Kapp (2020) é a primeira história do movimento contada de dentro, da ANI à luta contra o Judge Rotenberg Center, ao lobby no DSM-5 e à pesquisa participativa. Yergeau leva a crítica ao extremo: de Kanner a Baron-Cohen, os textos clínicos construíram o autista como alguém sem intenção e sem agência, e a ABA seria análoga às terapias de conversão, com Lovaas nos dois projetos.
Onde a voz autista converge com a clínica: origem biológica, continuidade com a população geral, sensorialidade, crítica à pseudociência. Onde diverge: no enquadramento de "prejuízo" (a tríade de Wing lida como diferença a partir do padrão neurotípico), na meta das intervenções (funcionar e ter bem-estar versus parecer típico) e em quem conta a história. Donvan e Zucker contam pela ótica de pais e clínicos, com autistas entrando só no fim; Silverman reconhece que seu livro é sobre pais e médicos; Eyal trata os autistas como mais um ator da "matriz".
Divergências e controvérsias
Asperger: protetor ou cúmplice. Silberman (2015) contra Donvan-Zucker (2016), Czech e Sheffer (2018). O consenso ficou com Czech e Sheffer, e Silberman o reconheceu. Avaliação: a evidência de cooperação consciente é sólida e suficiente para aposentar o epônimo; a tese mais forte de Sheffer, de que o conceito é intrinsecamente nazista, é mais fraca, porque Sukhareva (1925) e Kanner (1943) descreveram quadros semelhantes fora daquele contexto. O que fica do artigo de 1944 é o valor clínico e pedagógico, lido criticamente.
Kanner escondeu o espectro? Silberman sugere que sim; historiadores tratam como exagero, embora a presença de Frankl e Weiss na equipe seja documentada. Avaliação: Kanner escolheu uma definição estreita e a defendeu por décadas; se por ignorância ou estratégia, a base não permite decidir.
Lovaas: fundador ou vilão. Silberman e Donvan-Zucker registram choques, tapas e o Feminine Boy Project; Schreibman, formada na linha de Lovaas, e Lacerda, no Brasil, tratam o estudo de 1987 como pedra fundacional da prática baseada em evidência. Avaliação: os fatos sobre aversivos e desenho não estão em disputa, só sua relevância para a ABA de hoje; a pergunta sobre dano por treinar compliance e suprimir stims permanece aberta, com o estudo de Kupferstein (2018) metodologicamente frágil.
Epidemiologistas dizem que critérios, consciência e serviços bastam; Eyal responde que esses fatores são o que a desinstitucionalização produziu.
Quem cunhou "neurodiversidade". Singer reivindica a autoria; Botha, Chapman, Giwa Onaiwu, Kapp, Stannard Ashley e Walker (2024) sustentam que o conceito emergiu coletivamente na InLv; Singer chamou o artigo de difamatório. Soma-se a controvérsia de 2023, em que posts de Singer sobre pessoas trans afastaram boa parte do movimento. Abreu centra a narrativa em Singer de propósito, por achar que "tentaram apagar sua participação". Avaliação: a tese de 1998 é o documento datado; a gestação coletiva está documentada; as duas coisas são verdadeiras.
A fusão do Asperger no DSM-5. Adultos lamentaram a perda da identidade "Aspie"; Volkmar resistiu; outros viram o fim de uma hierarquia implícita, e 2018 reorientou o debate para a ética do nome. Avaliação: a evidência de que os subtipos não eram confiáveis é forte; a perda de identidade é real e foi mal cuidada.
"Profound autism" e quem fala por quem. A Comissão Lancet (2022) propôs a designação para pessoas com DI grave e/ou fala mínima que precisam de supervisão contínua, estimando entre 18% e 48% conforme a amostra; ASAN e a Global Autistic Task Force a consideraram divisão funcional com outro nome; Pellicano e den Houting, semanas antes, haviam argumentado que a ciência do autismo opera como "ciência normal" kuhniana e precisa do paradigma da neurodiversidade. Kapp et al. (2013), com 657 participantes, mostraram que quem adere à neurodiversidade não nega dificuldades: a divergência está em quais déficits importam, de onde vêm e qual é a meta do suporte. Avaliação: a crítica de que o movimento representa sobretudo autistas verbais é parcialmente procedente, e a resposta de Kapp, parcialmente convincente; a tensão é estrutural.
Linguagem. Bottema-Beutel et al. (2021) mapearam termos capacitistas e propuseram alternativas; Singer e colegas (2023) responderam que proibir "sintoma" e "transtorno" apaga autistas com DI severa. Este capítulo adota as recomendações de 2021, com a ressalva de que "transtorno" segue obrigatório em laudos e leis.
Na prática
Para um adulto autista
- Se o laudo antigo diz "síndrome de Asperger" (F84.5), ele foi convertido para TEA pela cláusula de grandfathering do DSM-5; na CID-11, você provavelmente cai em 6A02.0. Continuar usando o rótulo é escolha sua; saiba o que ele carrega.
- "Nível 1" não é "grau" nem "leve": é necessidade de apoio por domínio, pouco confiável entre avaliadores, e o manual diz que não deve decidir elegibilidade a serviços.
- Se ninguém o viu na infância, a razão é histórica: a cláusula do mascaramento é de 2013.
- "Autista" ou "pessoa com autismo": use a que preferir e peça que respeitem.
- Evitar: ler a história como progresso linear (cada época "viu" um autismo diferente) e tratar qualquer autor, inclusive os do movimento, como autoridade final.
Para a criança autista (e para os pais)
- A culpa residual da era Bettelheim ainda circula, sobretudo em consultórios de orientação psicanalítica; foi refutada em 1964.
- "Recuperação", "indistinguível dos pares" e "40 horas por semana" vêm de um único estudo não randomizado de 1987 que usava aversivos. Pergunte a qualquer serviço quais são as metas (habilidades adaptativas e bem-estar, ou parecer típico) e o que acontece com stimming e recusa.
- O luto pelo filho imaginado é legítimo; o conselho de Sinclair é elaborá-lo com outros adultos, longe da criança, por tempo limitado.
- A linhagem Rimland-DAN! (dietas, quelação, vacinas) tem mortes documentadas; o filtro de Schreibman (há estudos controlados? publicados onde? quem lucra?) continua válido.
- Sinais de alerta: serviço que promete cura; que usa "quiet hands"; que exclui os pais como Bettelheim ou os transforma em executores de 40 horas sem metas revisadas.
Brasil
O Brasil chegou cerca de duas décadas atrasado ao debate da neurodiversidade, por barreira de língua, hegemonia psicanalítica nos serviços, comunidades virtuais tardias e dominadas por pais, raridade do diagnóstico adulto antes do DSM-5 e acesso tardio à internet; o ativismo autista acelera depois de 2010 (ABRAÇA, Introvertendo em 2017, Canal Autismo). A herança psicanalítica é concreta: A fortaleza vazia saiu pela Martins Fontes em 1987, e variantes lacanianas persistiram em serviços públicos até os anos 2010. Em 2002, Camargos descrevia a década anterior como "tempo das trevas": escolas chamando todos de psicóticos, psicólogos culpando as mães; o avanço veio das famílias organizadas (AMA-SP, ABRA, ASTECA) com apoio da CORDE, e o próprio livro de Estado ainda misturava psicanálise, Jung, TEACCH e ABA sem hierarquia de evidência, sob o vocabulário de "transtornos invasivos" e "portador".
A Lei 12.764/2012 (Berenice Piana) equiparou a pessoa com TEA à pessoa com deficiência e definiu o quadro espelhando o rascunho do DSM-5, mas com "ou" entre os critérios e sem o perfil sensorial; nasceu do movimento de pais, não usa vocabulário de neurodiversidade e foi a alavanca da reivindicação de terapias intensivas, em tensão com a Rede de Atenção Psicossocial do SUS. Os códigos oficiais são os da CID: F84.0 e F84.5 ainda aparecem em laudos e na Ciptea, e a transição para 6A02.x exigirá reavaliar funcionamento intelectual e de linguagem. A disputa Lovaas-Sinclair tem versão local: Lacerda e Liberalesso traduzem as práticas baseadas em evidência do NCAEP para gestores, com uma voz autista pró-ABA (William Chimura) escolhida de propósito, e já tratam Asperger à luz de Czech; Abreu e o Introvertendo são o polo oposto. Das fontes históricas, só Sheffer (Crianças de Asperger, Record, 2019), Bettelheim (1987) e Emergence de Grandin (Uma menina estranha, Companhia das Letras, 1999) têm edição brasileira; Silberman não tem, e o mapa de traduções indica uma possível edição de Donvan e Zucker a verificar.
Perguntas em aberto
Sukhareva: a base tem uma única frase sobre ela.
Kanner e Viena: o que exatamente Kanner sabia do trabalho de Asperger não está resolvido.
O conceito é separável da origem? Sheffer diz que o diagnóstico nasceu como triagem; a clínica diz que os critérios são descritivos. Os dois podem ter razão.
O dano da ABA histórica e da atual: relatos de trauma e masking existem; a evidência quantitativa é fraca dos dois lados.
O espectro é uma coisa só? Happé, Ronald e Plomin propõem que é fracionável; o DSM-5 apostou na unidade.
Quem representa quem: o conflito entre autodefensores verbais e famílias de pessoas com altas necessidades de suporte não tem solução conceitual à vista.
A história brasileira do autismo ainda não foi escrita como livro; Abreu e Camargos são os únicos fragmentos.