Divergentes

Capítulo 9 · Como o autismo aparece no dia a dia

Interação social e relacionamentos

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Em uma página

A "dificuldade de reciprocidade social" é o primeiro critério diagnóstico do autismo e, por décadas, foi explicada como um déficit localizado na pessoa autista: falta de teoria da mente, cegueira para as mentes alheias. A partir de 2012, a sociologia de Damian Milton reformulou o problema como double empathy: a quebra de entendimento é mútua, entre duas disposições diferentes, e só a minoria é rotulada como deficitária. A evidência experimental que veio depois é consistente: autistas transmitem informação entre si tão bem quanto não autistas entre si; o que falha é o encontro misto.

Isso não anula a experiência concreta de não entender as regras implícitas do mundo majoritário. Grandin e Barron, de dentro, e Myles, de fora, chamam essas regras de "currículo oculto" e defendem ensiná-las explicitamente. O risco, documentado pela literatura de camuflagem, é que o treino de habilidades sociais se converta em masking: monitorar permanentemente o que os outros pensam de você custa exaustão, identidade e saúde mental.

Amizade, amor e sexo existem no espectro em toda a variedade humana, de casamentos longos a solteirice escolhida e assexualidade, com um traço comum nos relatos: comunicação explícita e respeito ao perfil sensorial. A outra face é a vulnerabilidade: bullying crônico, exploração por "amigos" e abuso em relações íntimas são frequentes e podem ser traumáticos no sentido clínico. A comunidade autista aparece, nas fontes, como o lugar onde a reciprocidade volta a funcionar sem tradução.

O que é e como se manifesta

Reciprocidade é o nome clínico para a dança de turnos, olhares, ajustes e inferências que sustenta uma interação. Na descrição diagnóstica, o autista falha nela: não inicia ou não responde, não compartilha interesse, não lê a expressão do outro, fala do que lhe interessa sem perceber o tédio alheio. Beardon prefere descrever o mesmo fenômeno como diferença de estilo: comunicação direta, dificuldade com subtexto, necessidade de regras explícitas, exaustão depois de interações longas, que ele chama de "ressaca social". Vermeulen oferece o mecanismo cognitivo mais usado em clínica: o cérebro autista conhece o contexto, mas não o aciona de forma espontânea e rápida, e por isso pensa de modo "absoluto" num mundo social que só faz sentido relativamente a quem, onde e quando.

Regras implícitas e currículo oculto. Toda situação social carrega regras que ninguém ensina porque "todo mundo sabe": não corrigir o professor diante da turma, responder "bem" a "como vai?" em vez de dar um relatório, não repetir o palavrão do colega popular. Autistas aprendem regras por instrução, não por osmose, e são punidos por violar o que nunca lhes foi dito; o custo vai do constrangimento à suspensão escolar e a problemas com a polícia. Grandin descreve a estratégia que desenvolveu: acumular exemplos concretos até formar uma categoria que generaliza, como um banco de dados; Barron, o oposto: aplicar cada regra aprendida como lei absoluta, fonte de conflito e ansiedade.

Na infância o sinal mais visível é o brincar. Wolfberg mostra que crianças autistas brincam e imaginam, mas de formas que pares e adultos não reconhecem como brincadeira; excluídas da cultura lúdica, perdem exatamente o contexto em que a reciprocidade se desenvolve. Parte do "déficit" é de acesso, não de capacidade. Attwood descreve estágios da amizade da infância à adolescência, cada um com um desafio distinto, e distingue querer amigos de saber como. Em meninas, a amizade frequentemente passa por uma única amiga que funciona como intérprete social; quando o grupo se reorganiza na adolescência e as regras ficam mais implícitas, a menina autista perde o chão. Sedgewick e Pellicano encontraram amizades de meninas autistas parecidas em forma com as de meninas típicas, porém com mais conflito relacional e mais dificuldade de identificar bullying.

Na vida adulta o padrão descrito por Kim é o de "socialização por script": roteiros pré-montados, custo alto de contato visual e de conversa fiada, processamento lento da fala, exaustão após eventos. Howlin registra, em dados de acompanhamento, isolamento, dificuldades em amizades e ingenuidade diante de exploração. E há a variação que Grandin e Barron encarnam: Grandin constrói a vida social em torno de interesses compartilhados e declara não sentir necessidade de intimidade romântica; Barron quer conexão emocional e precisa aprender o como. Nenhuma das duas posições é patológica.

O que a ciência diz

A hipótese do déficit: teoria da mente

O experimento de Sally e Anne (1985) fundou a explicação dominante por duas décadas: 20 crianças autistas, com idade mental verbal superior à de um grupo com síndrome de Down, falharam majoritariamente numa tarefa de crença falsa que as crianças típicas e as crianças com Down resolviam; apenas 20% das autistas acertaram. Baron-Cohen expandiu o achado num modelo modular (detector de intencionalidade, detector de olhar, atenção compartilhada, mecanismo de teoria da mente) e cunhou "mindblindness". No Brasil, a mesma arquitetura chegou como "cérebro social": a rede de atenção compartilhada, reconhecimento de faces, imitação e neurônios-espelho cujo desenvolvimento atípico explicaria o autismo.

As limitações acumularam-se. O déficit não é universal (uma parcela passa já em 1985; adolescentes e adultos verbais passam na maioria das tarefas), não é específico (crianças surdas e com atraso de linguagem falham de forma parecida) e depende fortemente de linguagem e função executiva. Gernsbacher e Yergeau, em 2019, concluíram que a alegação de que autistas carecem de teoria da mente falhou em replicação, especificidade e validade preditiva, e que serviu para negar credibilidade ao relato autista. A hipótese do espelho quebrado replicou mal, e o paradigma do cérebro social envelheceu.

Um refinamento importante veio de outra direção: Bird e Cook mostraram que boa parte dos "déficits de empatia" medidos em amostras autistas segue a alexitimia coocorrente (presente em cerca de metade dos autistas, contra cerca de 10% da população geral), não o diagnóstico. Autistas sem alexitimia respondem à dor alheia como controles. A distinção entre empatia cognitiva (inferir estados mentais) e empatia afetiva (compartilhar afeto) desmonta o estereótipo do "autista frio".

A hipótese relacional: double empathy

Milton, sociólogo autista e pai de um filho autista, publicou em 2012 cinco páginas que reorganizaram o debate. A dificuldade de compreensão entre autistas e não autistas é uma "disjunção na reciprocidade entre dois agentes sociais de disposições diferentes". O problema é duplo porque afeta os dois lados, e assimétrico apenas no poder: a maioria normaliza a própria falha e patologiza a da minoria. A minoria, por precisar navegar o mundo majoritário todos os dias, frequentemente entende os neurotípicos melhor do que é entendida. Em A Mismatch of Salience, Milton dá o mecanismo: cada neurótipo percebe como relevante coisas diferentes no mesmo ambiente, e cada lado "preenche lacunas" com suposições distintas. Sinclair já dissera o mesmo em 1993, em linguagem para pais: o filho não está "trancado numa concha", está num sistema de sinais diferente, e relacionar-se com ele exige aprender uma língua estrangeira, com trabalho dos dois lados.

A evidência chegou depois. Sasson e colegas (2017) mostraram que neurotípicos formam julgamentos negativos sobre autistas em segundos, a partir de "fatias finas" de comportamento, sem saber do diagnóstico; Sheppard e Edey (2016) mostraram que neurotípicos leem mal expressões e intenções de autistas; Morrison (2020) encontrou maior rapport em duplas autista-autista. O teste mais limpo é o de Crompton e colegas: 72 adultos em 9 cadeias de 8 pessoas, num "telefone sem fio" com uma história de 30 detalhes. Cadeias só de autistas e só de não autistas perderam informação em ritmo semelhante; as cadeias mistas perderam significativamente mais, exatamente nas passagens entre neurótipos, e os dois lados relataram menos rapport nas interações mistas. A revisão "ten years on" de Milton, Gurbuz e López (2022) faz o balanço.

Limites: o experimento de Crompton tem 9 cadeias como unidades de análise, só adultos falantes com QI médio, tarefa de reconto (não negociação nem conflito), e algumas replicações não reproduziram totalmente a vantagem dos pares autistas. Críticos clínicos observam que o desenho mostra incompatibilidade, não ausência de déficit, e que ele não diz nada sobre autistas com deficiência intelectual ou não falantes.

O custo social: estigma, masking, trauma

Se a quebra é relacional, o sofrimento também é. Botha e Frost aplicaram o modelo de estresse de minoria a 111 adultos autistas: discriminação cotidiana, vitimização, expectativa de rejeição, ocultação dos traços e estigma internalizado explicaram sofrimento psicológico para além do estresse geral da vida. Cage e colegas, em 262 adultos, mostraram que as razões para camuflar se agrupam em "convencionais" (emprego) e "relacionais" (fazer amigos, ser aceito, evitar bullying), e que quem camufla em todos os contextos, sem um espaço para ser autista, tem os piores índices de ansiedade e depressão. O estudo qualitativo de Hull com 92 adultos revelou um paradoxo central para este capítulo: muitos camuflam justamente porque querem contato social, não porque não querem.

Sobre bullying e trauma, Haruvi-Lamdan comparou 25 adultos autistas e 25 típicos: 32% dos autistas atingiram o limiar de TEPT provável contra 4% dos controles, e 60% dos autistas (contra 20%) escolheram um evento social, como humilhação, rejeição ou bullying, como o mais angustiante da vida. Rumball, em 59 adultos, encontrou taxas de TEPT provável acima de 40% entre expostos, inclusive após eventos que o DSM-5 não reconhece como trauma. As amostras são pequenas, verbais e online; a direção, porém, converge com o que a comunidade descreve há décadas.

Treino de habilidades sociais: o que a evidência sustenta

Os três métodos mais usados têm bases de evidência desiguais. As Social Stories de Gray têm critérios operacionais claros e revisões de estudos de caso único com efeitos de pequenos a moderados, maiores na redução de comportamentos considerados inadequados do que no ensino de habilidades novas, o que é um sinal incômodo para um método que se diz informativo e não comportamental; a maioria das "histórias sociais" em circulação viola a fórmula de descrever mais do que dirigir. O Social Thinking de Winner foi revisado pela Association for Science in Autism Treatment, que concluiu que os dados não o sustentam como baseado em evidência: a maioria dos artigos é conceitual e os poucos empíricos são pilotos sem grupo controle. O currículo oculto de Myles é prática clínica sem estudos controlados sobre o pacote. O programa de afeto de Garnett e Attwood tem um piloto na Universidade de Queensland, sem replicação independente conhecida. Os Integrated Play Groups de Wolfberg são a exceção com um ensaio controlado (2015), com ganhos em jogo simbólico e engajamento com pares que generalizaram.

Sexualidade e diversidade

Pessoas autistas têm taxas bem mais altas de não heterossexualidade e de diversidade de gênero do que a população geral; os estudos de referência são George e Stokes (2018) e Warrier e colegas (2020). As hipóteses em debate incluem menor adesão a normas sociais, pensamento menos categórico sobre o próprio corpo, alexitimia e interocepção atípica dificultando a leitura do desejo, e viés de amostragem clínica. A literatura clínica frequentemente confunde assexualidade com "falta de interesse" atribuída ao autismo.

O que os autistas dizem

A frase que atravessa os relatos é "o problema não é só meu". Crompton foi recebido pela comunidade como vindicação: "sempre dissemos que nos entendemos melhor entre nós". A ASAN, em linguagem simples, antecipa a dupla empatia no capítulo sobre socialização e lista entre os "fatos" que autistas sabem que os outros têm pensamentos, uma resposta direta ao mindblindness. Petry, de Santa Catarina, escreve para mostrar que autistas não são "ilhas sem respostas sentimentais a seu meio" e que o sentir autista se expressa de formas sutis que passam despercebidas. Robison conta que adultos o chamavam de "sociopata" porque sentia muito e não mostrava, e defende aprender a nomear e sinalizar emoção, não a fingi-la.

Sobre regras, a voz autista se divide. Grandin, Barron e Robison estão na linha da adaptação: aprender o código barato das boas maneiras compra tolerância para as esquisitices caras; cada ajuste é um investimento, não uma rendição. Luke Jackson, aos 13 anos, pedia o oposto aos adultos: digam exatamente o que querem, em vez de exigir que eu adivinhe. Vitorino, no Brasil, reivindica o direito ao convívio "à sua maneira", sem obrigação de contato visual ou small talk. Price vai mais longe: a máscara é resposta de sobrevivência a um mundo que pune a diferença, e relacionamentos duradouros exigem comunicação explícita, limites e comunidade autista.

Sobre amor, as coletâneas mudaram o gênero. Hendrickx, em 2008, foi perguntar aos próprios autistas o que querem e encontrou o contrário do estereótipo: desejo de intimidade e sexo em toda a variedade, com condições próprias, como literalidade no flerte, respeito ao perfil sensorial no toque, espaço próprio na relação e previsibilidade. Beardon e Worton reuniram 26 relatos para derrubar dois estereótipos simétricos, o do autista incapaz de intimidade e o do autista que precisa ser "ajudado" a formar casal, e trataram a solteirice escolhida, a assexualidade e a arromanticidade como legítimas, não como fracasso. Finch transformou o casamento num projeto de "melhores práticas", e a comunidade o lê com ambivalência: é raro ver um autista descrever o próprio trabalho de reciprocidade, mas toda a adaptação parte dele.

Sobre comunidade, a história é concreta. A Autism Network International, fundada em 1992, criou o Autreat em 1996 com regras próprias de interação: crachás de cor indicando disponibilidade para conversa, espaços de descompressão, baixo estímulo; o Autscape britânico herdou o modelo. Nos dados de Cage, a comunidade autista foi a fonte mais consistente de aceitação. A ASAN é honesta sobre quem fica de fora: grupos que excluem quem não tem laudo, grupos inacessíveis, autistas que discriminam autistas. Ekins acrescenta o "masking duplo" de quem é autista e queer.

Onde a voz autista diverge da literatura clínica: no critério de sucesso. Howlin classifica desfechos adultos por emprego, independência e relações, critérios que pesquisadores e autistas criticaram por normativos; Beardon e Worton respondem com "contentamento autodefinido". E no foco: a pesquisa mede o autista; o autista pede que se meça o encontro.

Divergências e controvérsias

A teoria da mente tem quatro décadas de dados, mas falhou em universalidade e especificidade; a dupla empatia tem uma década de evidência convergente, mas com amostras pequenas e de adultos verbais. Minha avaliação: a dupla empatia descreve melhor o que acontece entre adultos falantes de QI médio, que é a população dos estudos e a do dono deste acervo; não resolve, e Milton reconhece isso, as dificuldades de comunicação de autistas com deficiência intelectual ou não falantes, que não se dissolvem apenas pelo esforço do outro. As duas teorias usam "empatia" em sentidos diferentes (compreensão ampla em Milton, empatia afetiva na psicologia), o que alimenta parte do debate. A alexitimia atravessa as duas e nenhuma a absorve bem.

Ensinar o currículo oculto é ensinar masking? Myles, Winner e Gray ensinam o autista a ler o neurotípico; nenhum deles oferece ao neurotípico uma lista do "currículo oculto autista" (silêncio não é desinteresse, pergunta direta não é grosseria). Winner vai além: "expected/unexpected behavior", "social fake" e o próprio título descrevem um treino de monitoramento permanente do que os outros pensam de você, que é exatamente o mecanismo que Hull e Raymaker associam a exaustão e burnout. Do outro lado, Grandin defende o ensino explícito de maneiras com a autoridade de quem o recebeu, e Mandy, clínico, pergunta se "tirar a máscara" deveria ser meta clínica em vez de ensinar a mascarar melhor, sem decretar a resposta. Minha leitura: a distinção útil, que Myles não faz e Robison faz, é entre regras que protegem o autista (segurança, consentimento, consequências legais) e convenções que só protegem o conforto alheio. As primeiras se ensinam; as segundas se informam, e a pessoa decide.

Quem adapta? Beardon recusa a ideia de que a criança precisa de treino social para ter amigos: defende criar oportunidades de encontrar pares compatíveis, permitir solidão e proteger contra relações abusivas, não treinar a criança para ser aceita por quem não a aceita. Leaf e McEachin, no extremo oposto, ensinam socialização por tentativas discretas e tratam o stimming como barreira à aceitação social. Garnett e Attwood ocupam o meio: o jovem aprende a expressar afeto no código esperado, mas a família aprende a ler as formas autistas de afeto (proximidade, ajuda prática, interesse compartilhado). Avaliação: a direção dupla é o único modelo compatível com a evidência de Crompton, e o critério de Prizant ("por quê?" antes de "como paro isso?") é a pergunta certa para julgar qualquer programa.

A "síndrome de Cassandra". O capítulo de Attwood sobre casais foi criticado por reproduzir a narrativa do parceiro não autista como vítima, pouco baseada em pesquisa; Hendrickx e Beardon dão a palavra ao autista sem lhe atribuir a culpa pela relação, e o volume irmão de Biel e Harper para parceiros tenta dividir a responsabilidade.

Gênero. A sobreposição entre autismo e diversidade de gênero é consensual; o cuidado de adolescentes autistas em clínicas de gênero virou debate politizado depois de 2020. Os dois livros do acervo são anteriores e afirmativos; o que segue válido nas diretrizes é não usar o autismo para negar ou adiar cuidado.

Na prática

Para um adulto autista

  • Troque "o que há de errado comigo" por "o que falhou no encaixe". A pergunta de Cage ("onde você consegue não mascarar?") é ferramenta: quem tem pelo menos um contexto seguro tem melhores índices de saúde mental do que quem camufla em todos.
  • Use regras explícitas como sistema, não como lei. As dez regras de Grandin e Barron funcionam como banco de dados; a primeira delas, "regras não são absolutas, dependem da situação e das pessoas", é o antídoto para a rigidez que Barron descreve. Finch mostra o risco oposto: o excesso de regras virou, em si, um problema.
  • Nos relacionamentos, comunicação explícita e acordos revisáveis. É o fator de sucesso mais citado nos relatos de casais: contratos claros, rotinas, espaço próprio negociado, aceitação de que afeto se expressa de formas não convencionais. Biel e Harper propõem acordos periódicos em vez de leitura de clima e um teste de reciprocidade: a relação é mútua ou extrativa?.
  • Sexo e sensorialidade. Hiper e hipossensibilidade definem o que é prazer e o que é aversão; falar disso literalmente é o que os casais que funcionam fazem. Baixa libido, alta libido, assexualidade e arromanticidade são variações, não sintomas.
  • Consentimento nos dois sentidos. Harper o define de forma operacional: perguntar, aceitar "não", entender que insistência não é romance; e o inverso, reconhecer quando você é alvo de manipulação. O masking aumenta a vulnerabilidade porque ensina a ignorar o próprio desconforto; Pearson chama de "mate crime" a exploração por quem se apresenta como amigo, e Price nomeia o padrão de "fawn".
  • Se bullying ou humilhação deixaram marcas, trate como trauma. Revivência, evitação e hipervigilância depois de eventos sociais são TEPT mesmo quando o evento não cabe no critério A; terapias focadas em trauma parecem aplicáveis com adaptações, embora a evidência ainda seja de séries pequenas.
  • Procure pares. A comunidade, presencial ou online, é onde a tradução deixa de ser necessária; comece por um texto curto e acolhedor, e lembre que a comunidade também exclui, por diagnóstico, por acessibilidade, por hierarquias internas.
  • Disclosure é decisão estratégica, não obrigação; há roteiros prontos para família, amigos, escola e trabalho.

Para a criança autista (e para os pais)

  • Comece aprendendo a língua dela. Sinclair pede que os pais parem de esperar reciprocidade no sistema deles e aprendam o do filho, aceitando que "dá trabalho e o resultado vai ser estranho". Os 29 autores de Sincerely, Your Autistic Child repetem: presumam competência, não tentem mudar a criança, mudem o mundo, e entreguem a ela a comunidade autista, porque ela vai precisar de pares que a entendam.
  • Leia o afeto no código dela. Proximidade, ajuda prática, compartilhar o interesse, tolerar o toque: isso é amor demonstrado. O mapa de conforto de Garnett e Attwood (que gestos a criança gosta de dar e receber, com quem) protege de toque indesejado e dá à família vocabulário para negociar, inclusive com a avó que insiste no abraço.
  • Amizade não precisa ser igual à dos outros. Pode ser uma pessoa só, em torno de um interesse, online, com alguém mais velho ou mais novo; solidão escolhida não é isolamento. Crie oportunidades de encontrar pares compatíveis, muitas vezes outros autistas, e grupos de brincar guiados em que a criança autista esteja em minoria e um adulto leia as iniciativas dela, mesmo o alinhar de carrinhos, como convite.
  • Explique o currículo oculto sem punir. O "safe person" (um adulto a quem perguntar sem julgamento) e a "social autopsy" (analisar depois do erro o que aconteceu, quem foi afetado e como corrigir) são as ferramentas não punitivas de Myles. Se usar Social Stories, siga a fórmula: descrever mais do que dirigir, e metade das histórias de reconhecimento, não de problema.
  • Filtre o que ensina. Antes de cada regra, pergunte se ela protege a criança ou só o conforto alheio. Ensinar a criança a forçar contato visual, suprimir stims e rir quando os outros riem é ensinar masking; a aluna "modelo" que desaba em casa está pagando esse preço.
  • Bullying é responsabilidade da escola, não da vítima. Beardon o trata como a maior fonte de dano de longo prazo em autistas; Attwood dedica um capítulo a estratégias para escola, pais e criança; Jackson pede aos pais que acreditem no filho e ajam com a escola, e aos adolescentes que contem, não reajam com violência e busquem aliados. Sinais de alerta: recusa escolar, regressão de habilidades, aumento de comportamentos repetitivos, mutismo, piora após eventos de vida. Meninas têm mais dificuldade de identificar que estão sendo alvo.
  • Puberdade, sexualidade e consentimento: antecipe, explicitamente. Corpo, privacidade, higiene e primeiras relações explicados antes, sem metáforas; a adolescência é período de risco e não é hora de retirar suportes porque a criança "parece dar conta". A probabilidade de o filho ser também LGBTQIA+ é maior do que a média, o que torna Queerly Autistic leitura preparatória para pais.
  • Dê à criança livros em que ela se veja. A Kind of Spark explica masking, burnout e capacitismo escolar a uma criança de 9 anos; Outside the Lines mostra acomodações negociadas como direito normal. Medeie Rules: uma leitora autista resume a mensagem como "autistas precisam ser ensinados a não ser autistas".

Brasil

A base conceitual que chegou ao Brasil nos anos 2000 foi a do "cérebro social": o livro de Dourado, psiquiatra e mãe que fundou a Casa da Esperança após a escola rejeitar seus filhos, e o volume de Mercadante e Rosário organizam o autismo em torno de atenção compartilhada, reconhecimento de faces e neurônios-espelho, sem diálogo com a neurodiversidade. A tensão é histórica: a mesma Casa da Esperança trouxe Jim Sinclair ao Brasil, e a ABRAÇA, nascida dessa militância, foi a primeira associação a incorporar autistas adultos na direção. A dupla empatia começa a aparecer em materiais de formação e em textos da comunidade brasileira.

Na divulgação recente, os volumes de Kerches cobrem habilidades sociais por etapa, sexualidade e "afetividade e relacionamentos", com capítulos de autistas adultas, mas ainda falam em "déficits em habilidades sociais". O manual de Del Porto e Assumpção dedica capítulos a relacionamentos afetivos e sexualidade de adultos e a abordagens de habilidades sociais; os livros de Silva e Mendonça descrevem a camuflagem de mulheres autistas brasileiras. Para adolescentes, Sou autista, e agora? trata bullying e direitos com consultoria jurídica, numa das poucas obras nacionais para jovens escrita por autista. Para crianças pequenas, Meu amigo faz iiiii narra a amizade do ponto de vista da colega neurotípica que aprende a entender o amigo, sem cura nem normalização, com a limitação de que Nil é visto de fora.

No direito, a Lei 12.764/2012 garante à pessoa autista "proteção contra abuso e exploração" e veda tratamento desumano ou degradante. A LBI afirma que a deficiência não afeta a capacidade civil de casar, ter filhos, decidir sobre o próprio corpo e exercer guarda, cria a tomada de decisão apoiada como alternativa à curatela, define a recusa de adaptações razoáveis como discriminação e tipifica a discriminação por deficiência como crime. O art. 6º da LBI é a resposta jurídica ao gatekeeping que Ekins e Mendes descrevem: autismo não invalida decisões sobre o próprio corpo e os próprios vínculos. A sanção escolar por recusa de matrícula raramente é aplicada e a recusa migrou para formas veladas. Os ajustes "garantidos" nos livros britânicos de Beardon dependem, aqui, da LBI e, muitas vezes, de mediação judicial.

Perguntas em aberto

  • Mecanismo da perda nas cadeias mistas. Crompton mostra que a transferência cai na transição entre neurótipos, mas não identifica o que se perde: ritmo, ênfase em detalhes, pistas não verbais, pressupostos de relevância?
  • Dupla empatia além dos adultos verbais. Nada se sabe sobre crianças, não falantes e pessoas com deficiência intelectual; o próprio Milton reconhece que a teoria não nega diferenças reais de processamento.
  • Camuflagem ou competência social aprendida? O limite conceitual segue aberto; as medidas de autorrelato podem capturar ansiedade social, e não há dados longitudinais sobre causa e efeito entre masking e depressão.
  • Intervenções bidirecionais. Nenhum programa do acervo foi testado ensinando o lado neurotípico; a ideia existe (Milton, Beardon, Garnett e Attwood), a evidência não.
  • Trauma causado por intervenções e serviços. A comunidade o considera central; a pesquisa de TEPT ainda não o mede.