Trilha · Mães, pais e cuidadores
Meu filho tem questões sensoriais: por onde começar
Tapar os ouvidos, recusar roupas e comidas, não parar quieto, se jogar no chão. O que está por trás, o que ajuda em casa e quando procurar uma terapeuta ocupacional.
5 min de leitura
Em resumo
- Reagir forte (ou fraco) a sons, texturas e movimento é parte do autismo, não birra.
- Existem três padrões: sentir demais, sentir de menos e buscar estímulo. A mesma criança pode ter os três.
- Em casa: observe e anote, reduza o que incomoda, ofereça trabalho pesado e avise antes das mudanças.
- Quem avalia é a terapeuta ocupacional. No Brasil, o SUS e os planos de saúde devem cobrir as terapias.
- Desconfie de promessas de cura: a evidência das terapias sensoriais ainda é modesta.
Este texto é educativo e não substitui a avaliação de um profissional que conheça o seu filho.
Você não está imaginando, e não é birra
Muitas crianças autistas percebem o mundo de um jeito diferente. Um som comum pode doer, uma etiqueta de roupa pode ser insuportável, o cheiro da cantina pode ser demais. Ao mesmo tempo, a mesma criança pode quase não sentir uma batida forte e precisar pular, girar e apertar tudo.
Isso é tão comum que o manual diagnóstico atual (DSM-5-TR) incluiu a reatividade sensorial entre os critérios do autismo. A primeira grande meta-análise sobre o tema mostrou que as diferenças sensoriais são parte do quadro, e não exceção. Ela também mostrou algo que surpreende muitos pais: a diferença mais marcante nem é a hipersensibilidade, e sim a hiporresponsividade, que é a criança que demora a reagir ou não reage.
Quando a criança tapa os ouvidos, foge, morde ou "explode", na maior parte das vezes ela está reagindo a uma sobrecarga real. Não é manha nem falta de limite.
Três padrões que ajudam a entender seu filho
Pesquisadores e terapeutas costumam descrever três jeitos de reagir. A mesma criança pode ter os três, cada um em um sentido diferente:
- Hiper-reatividade (sente demais): tapa os ouvidos, recusa texturas, odeia escovar os dentes ou cortar o cabelo, se incomoda com luz forte ou com o toque leve.
- Hiporreatividade (sente de menos): parece não ouvir quando é chamada, não percebe que se machucou ou que está suja, demora a reagir.
- Busca sensorial: precisa de muito estímulo, então pula, gira, se joga, aperta, morde objetos e toca em tudo.
Outro modelo muito usado, o da terapeuta Winnie Dunn, cruza duas perguntas: quanto estímulo o sistema nervoso da criança precisa para reagir, e se ela age para mudar esse estímulo ou não. Daí saem quatro perfis: quem busca, quem não registra, quem é sensível e quem evita. A mensagem de Dunn para as famílias é que nenhum perfil é doença. O objetivo é ajustar o ambiente ao perfil, e não brigar com ele.
Existem mais sentidos do que cinco
Além de visão, audição, olfato, paladar e tato, contam muito:
- Vestibular: equilíbrio e movimento. Explica a criança que tem medo de balanço ou, ao contrário, que não para de girar.
- Proprioceptivo: a sensação dos músculos e das articulações. Explica a criança que aperta, empurra e se joga.
- Interocepção: a percepção de dentro do corpo, como fome, sede, dor, frio, calor, vontade de ir ao banheiro e coração acelerado.
A interocepção ajuda a entender coisas que muitos pais vivem e não sabem explicar. A fome que vira irritação de repente, a crise "sem aviso" e o xixi na roupa já em uma idade em que isso não era esperado podem vir de dificuldade em perceber os sinais do próprio corpo a tempo.
O que costuma ajudar em casa
Estas são estratégias práticas recorrentes nos guias para famílias. A maioria é de consenso clínico, não de pesquisa forte, então observe o que funciona para o seu filho:
- Vire um detetive sensorial. Anote por uma ou duas semanas quando as crises acontecem, onde, com que barulho, roupa, comida ou cansaço. Os padrões aparecem, e essa anotação ajuda muito numa avaliação.
- Reduza o que machuca. Ofereça abafador ou fone para lugares barulhentos, roupas sem etiqueta e com tecido macio, luz mais baixa e um "cantinho calmo" para onde ele possa ir.
- Ofereça o que regula. "Trabalho pesado" e pressão profunda são citados como os estímulos mais organizadores e de menor risco: empurrar, puxar, carregar peso, pular, abraço apertado (se ele gostar), mastigar algo firme.
- Avise antes. Antecipe mudanças, barulhos e o que vai acontecer, com palavras, fotos ou uma rotina visual. Previsibilidade reduz a sobrecarga.
- Respeite os stims seguros. Balançar, sacudir as mãos e repetir sons costumam ser formas de se acalmar. Adultos autistas descrevem que ser obrigado a parar faz mal. Vale intervir só quando há risco de machucar, e mesmo assim oferecendo uma alternativa com a mesma função.
- Na hora da crise, menos é mais. Diminua estímulos e palavras, garanta a segurança e espere passar. Conversar, explicar e ensinar fica para depois, quando ele estiver calmo.
Comida: seletividade não é frescura
Muitas crianças autistas comem pouquíssimos alimentos por causa de textura, cheiro, aparência ou dificuldade motora da boca. A orientação dos guias é nunca forçar, investigar primeiro causas médicas e oral-motoras e aproximar os alimentos novos aos poucos: primeiro aceitar ter o alimento na mesa, depois tocar, cheirar e só então provar. Se a restrição for grande, com perda de peso ou de alimentos que ele já comia, procure o pediatra e uma equipe de alimentação.
Quem procurar
- Terapeuta ocupacional (TO) com experiência em autismo e processamento sensorial. É quem avalia o perfil sensorial, por exemplo com o Perfil Sensorial 2, e monta um plano para casa e escola.
- Pediatra ou neuropediatra, para descartar dor, problemas de audição ou visão, refluxo, constipação e questões de sono.
- A escola, para combinar adaptações: pausas, fone, lugar na sala, aviso antes de barulhos e um local para se acalmar.
No Brasil, a pessoa autista tem direito a atendimento multiprofissional pelo SUS, e os planos de saúde precisam cobrir as terapias.
O que a ciência ainda discute (para você decidir com informação)
- "Transtorno do Processamento Sensorial" (SPD) é um termo muito usado por terapeutas, mas não é um diagnóstico oficial no DSM-5-TR nem na CID-11. As diferenças sensoriais entram no próprio diagnóstico de autismo.
- Terapia de integração sensorial (o método de Ayres, feito por TO com formação específica e seguindo o protocolo) tem evidência modesta. Já "estratégias sensoriais" soltas, como colete com peso, escovação e programas de escuta, têm evidência fraca ou ausente. Desconfie de promessas de cura ou de pacotes caros.
- A maior parte da pesquisa usa questionários respondidos pelos pais. Isso mede o que o adulto observa, e não exatamente o que a criança sente.
Para ir além
- O capítulo Processamento sensorial do guia aprofunda cada um dos oito sentidos, os modelos de Dunn, Ayres e Miller e o que a pesquisa ainda discute.
- O capítulo Emoções e regulação explica a relação entre sobrecarga sensorial, meltdown e shutdown.
- O capítulo Saúde física, sono e alimentação trata da seletividade alimentar com mais detalhe.