Capítulo 7 · Como o autismo aparece no dia a dia
Processamento sensorial
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Diferenças sensoriais não são um detalhe do autismo: são uma das suas características mais consistentes e precoces, presentes em algo entre 70% e 90% dos autistas segundo a revisão de Robertson e Baron-Cohen, e critério diagnóstico desde o DSM-5 (2013), no item B4, "hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente". O campo trabalha com oito sentidos: os cinco clássicos mais o vestibular (movimento e gravidade), o proprioceptivo (posição e força do corpo) e, nas últimas duas décadas, o interoceptivo (estado interno: fome, dor, batimentos, bexiga, tensão).
Três quadros organizam a literatura. A integração sensorial de Ayres explica por que pressão profunda e trabalho pesado acalmam e toque leve agride. O modelo de Dunn cruza limiar neurológico com estratégia de autorregulação e produz quatro padrões (busca, evitação, sensibilidade, registro baixo) que coexistem na mesma pessoa em sentidos diferentes. A nosologia de Miller separa modulação, discriminação e práxis, e dentro da modulação distingue hiper-responsividade, hiporresponsividade e busca. A metanálise de Ben-Sasson e colegas mostrou que a maior diferença entre autistas e não autistas está na hiporresponsividade, com pico entre 6 e 9 anos.
A sobrecarga sensorial é a via mais comum para o meltdown e o shutdown, e a interocepção atípica explica por que a crise parece "vir do nada". A evidência de intervenção é modesta: integração sensorial com fidelidade tem suporte limitado, estratégias avulsas (coletes, escovação) têm evidência fraca, e voz autista e pesquisa recente convergem em acomodação do ambiente, respeito ao stimming e ensino de autoconhecimento corporal.
O que é e como se manifesta
Os oito sentidos. A terapia ocupacional distingue os sentidos "distantes" (visão, audição) dos "próximos": tátil, vestibular e proprioceptivo, que Ayres tratava como fundação de todo o resto. Olfato e paladar completam os sete que Kranowitz e Delaney ensinaram a pais. O oitavo, a interocepção, entrou no vocabulário clínico com Kelly Mahler em 2017: a percepção do estado interno do corpo (batimentos, respiração, fome, sede, temperatura, dor, bexiga, tensão muscular) e, segundo ela, a base da experiência emocional, porque uma emoção é em grande parte a leitura de um estado corporal.
Três funções: modulação, discriminação e práxis. Modulação é regular a intensidade e a duração da resposta a um estímulo; discriminação é extrair qualidade e localização da informação (o que toquei, onde está meu braço); práxis é idear, planejar e executar ações novas. A mesma criança pode ter as três alteradas (reage ao toque leve como ameaça, não sabe quanta força usa no lápis, não aprende a andar de bicicleta), e cada uma pede apoio diferente. Questionários de pais capturam modulação muito melhor que discriminação ou práxis, que exigem testes de desempenho.
O modelo de Dunn: quatro quadrantes. Dunn propôs em 1997 dois contínuos: o limiar neurológico (quanto estímulo o sistema nervoso precisa para reagir) e a estratégia de autorregulação (passiva ou ativa). O cruzamento gera registro baixo (limiar alto, passivo: não nota o nome chamado, a roupa torta), busca sensorial (limiar alto, ativo: pula, gira, toca tudo, aperta), sensibilidade sensorial (limiar baixo, passivo: nota tudo, irrita-se, mas permanece) e evitação sensorial (limiar baixo, ativo: rituais, rotinas rígidas, retirada). Cada pessoa pontua nos quatro ao mesmo tempo e por sistema sensorial: o perfil "busca alta e evitação alta" é comum no autismo, busca movimento e pressão, evita som e toque leve. Nenhum padrão é doença.
A nosologia de Miller. Miller e colegas publicaram em 2007 a classificação do "Sensory Processing Disorder" (SPD): (1) Sensory Modulation Disorder, com Sensory Over-Responsivity (SOR: respostas rápidas, intensas e prolongadas), Sensory Under-Responsivity (SUR: não nota, tolera dor) e Sensory Seeking/Craving (SS: busca insaciável que muitas vezes desorganiza); (2) Sensory Discrimination Disorder (SDD); (3) Sensory-Based Motor Disorder (SBMD), com transtorno postural e dispraxia. A nuance mais útil para um pai: a mesma criança pode ser SOR para som e SS para propriocepção, e a busca que regula é diferente do craving que desorganiza, que pede input estruturado, não mais input.
O que fica fora dos modelos. Bogdashina, partindo de autobiografias autistas, descreve fenômenos que os questionários não capturam: percepção em gestalt (qualquer detalhe alterado muda "tudo"), mono-processamento (um canal por vez: quem olha não ouve), percepção fragmentada, processamento atrasado, agnosia sensorial (a sensação chega, o significado não), percepção periférica como alívio, e a inconsistência: o mesmo som insuportável num dia passa despercebido no outro, porque o limiar flutua com fadiga e ansiedade. Grandin descreve a impossibilidade de atender a dois canais e um sistema nervoso em alerta constante.
Interocepção. Mahler distingue sensibilidade (os sinais chegam), consciência (a pessoa nota e nomeia) e regulação (age). Com consciência baixa, as emoções ou não chegam (parece calma até explodir) ou chegam de zero a cem: fome que vira raiva, bexiga sentida tarde demais, dor não relatada, meltdown sem aviso. Há o polo oposto, a hiperconsciência, em que o problema é excesso de sinal.
Infância e vida adulta. Os sintomas sensoriais aparecem no primeiro ano e predizem traços sociais posteriores. A diferença em relação a pares típicos parece crescer até um pico entre 6 e 9 anos e diminuir, mas a metanálise tinha poucos adultos e a queda pode refletir camuflagem aprendida. Adultos não "superam" questões sensoriais: compensam e pagam com ansiedade, depressão e isolamento. Na velhice, mudanças físicas e transições se somam à sobrecarga.
Sobrecarga, meltdown e shutdown. Quando a entrada ultrapassa a capacidade de processamento, vem luta ou fuga: meltdown (externalizante) ou shutdown (mudez, perda de acesso às palavras, necessidade de escuro). Lipsky descreve o meltdown como reação involuntária, com escalada, pico, recuperação, exaustão e vergonha; o gatilho visível é a última gota de um acúmulo, e a sobrecarga sensorial está entre os mais frequentes. Higashida descreve a crise como perder o controle do corpo, não como birra. O capítulo 14 aprofunda o meltdown.
O que a ciência diz
Prevalência e status diagnóstico. Tomchek e Dunn, e depois Ben-Sasson, reportaram processamento sensorial atípico em 45% a 95% das amostras autistas, conforme instrumento e idade. A metanálise de Ben-Sasson e colegas, com cerca de 14 estudos até 2007, quase todos questionários de pais, encontrou diferenças grandes; o maior efeito foi para hiporresponsividade, depois hiper-responsividade e busca. Contra outros grupos clínicos as diferenças foram menores, sobretudo para busca: parte do fenótipo é compartilhada com outras condições do neurodesenvolvimento.
Dunn e o Sensory Profile. O modelo nasceu da neurociência da habituação e sensibilização, traduzida na metáfora do limiar, e da análise fatorial do Sensory Profile original (125 itens, mais de mil crianças típicas de 3 a 10 anos). O Sensory Profile 2 (2014) tem formulários por idade (Child com 86 itens, Short com 34, School Companion com 44 preenchido pelo professor), normas norte-americanas de cerca de 1.800 crianças, e classifica cada quadrante e cada seção sensorial em cinco faixas por desvio-padrão. O manual é explícito: "mais que os outros" não é "pior", e o instrumento não diagnostica autismo; serve para documentar o B4, diferenciar sobrecarga de "problema de comportamento" e orientar acomodações. Limitações: depende do relato de cuidadores, a correspondência com medidas fisiológicas é fraca, a estrutura de quatro fatores tem suporte parcial, e crianças autistas pontuam como diferentes em três ou quatro quadrantes ao mesmo tempo.
Ayres e a integração sensorial. A teoria de 1972 propôs que o tronco cerebral integra input vestibular, proprioceptivo e tátil antes que o córtex faça trabalho fino, que a criança tem um "impulso interno" para buscar as sensações de que precisa, e que a terapia oferece um ambiente rico em que ela escolhe atividades com o "desafio na medida certa". A definição de abertura, "sensory integration is the organization of sensation for use", ainda é citada. Resistem bem a distinção entre tato protetivo e discriminativo (por que pressão profunda acalma e toque leve agride, origem clínica do "aperta a bola para se regular") e a observação de que no autismo o problema não é só modulação, mas registro. As críticas são sérias: a neurologia hierárquica envelheceu, Cummins (1991) não encontrou sustentação para as síndromes fatoriais, e a nosologia mudou entre 1972, 1979 e 1989.
Miller, o SPD e a AAP. Miller estimou prevalência de 1 em 20 a partir de triagens por questionário em amostras locais e mostrou diferenças de resposta eletrodérmica e variabilidade cardíaca em crianças com SOR, argumento de que a hiper-responsividade é corporal. A campanha pela inclusão do SPD no DSM-5 fracassou: a reatividade sensorial entrou como critério do autismo, e a Academia Americana de Pediatria (2012) recomendou não usar "SPD" como diagnóstico isolado e tratar a integração sensorial como intervenção de evidência limitada. Nem o DSM-5-TR nem a CID-11 reconhecem o SPD.
Mecanismos neurais. Robertson e Baron-Cohen distinguem reatividade sensorial (questionários) de processamento perceptual (psicofísica), que se correlacionam só parcialmente, e organizam as hipóteses: desequilíbrio excitação/inibição com sinalização GABAérgica reduzida, ruído neural aumentado (que explicaria hiper e hiporreatividade), normalização divisiva reduzida e codificação preditiva atípica. O padrão geral é "mais detalhe, menos integração", consistente com o funcionamento perceptual aprimorado de Mottron. Propõem que o sensorial pode ser primário e contribuir para as dificuldades sociais, e reconhecem que muitos achados não replicam.
Teorias preditivas e mundo intenso. Pellicano e Burr propuseram priors atenuados: o mundo é "real demais". Van de Cruys reformulou como precisão alta e inflexível dos erros de predição (HIPPEA): a hipersensibilidade não é limiar periférico, mas um mundo que nunca deixa de ser surpreendente, e rotinas e stims são ilhas de previsibilidade. Vermeulen tirou a consequência clínica: o mesmo som é tolerável quando previsto e insuportável quando inesperado; a sobrecarga é de erros de predição, não de decibéis, e por isso o perfil flutua. O mundo intenso de Markram chega perto por outra via (microcircuitos hiper-reativos em ratos expostos ao valproato), mas a base animal e a recomendação de evitar estimulação precoce são contestadas. A intolerância à incerteza de Rodgers faz a ponte com a ansiedade.
Interocepção. Garfinkel e colegas separaram acurácia (detectar objetivamente os próprios batimentos), sensibilidade (crença autorrelatada de sentir o corpo) e consciência (concordância entre confiança e acurácia). Em grupos de cerca de vinte adultos autistas sem deficiência intelectual, encontraram acurácia menor e sensibilidade maior: acham que sentem muito o corpo, mas detectam mal os sinais. A discrepância correlacionou-se com ansiedade, e a acurácia baixa com alexitimia; o grupo depois testou treino por biofeedback cardíaco (ensaio ADIE, 2021) com redução de ansiedade. Bird e Cook sustentam que grande parte dos "sintomas emocionais" do autismo vem da alexitimia, presente em cerca de 50% dos autistas contra 10% da população geral. Limites: amostras pequenas, a tarefa de contar batimentos foi criticada por confundir acurácia com crenças sobre a própria frequência cardíaca, e Shah e colegas (2016) atribuíram a acurácia reduzida à alexitimia.
Evidência de intervenção. O capítulo final de Bundy e Lane responde "a IS é eficaz?" com cautela: suporte para a Ayres Sensory Integration com fidelidade em desfechos individualizados, inclusive o ensaio de Schaaf e colegas (2014) com crianças autistas, e evidência fraca para abordagens isoladas: coletes de peso, escovação, programas auditivos. A metanálise de Sandbank (2020) não encontrou efeito consistente para intervenções sensoriais de 0 a 8 anos, enquanto o NCAEP 2020 lista a integração sensorial entre 28 práticas baseadas em evidência. Para interocepção, os dados de Mahler e Goodall são estudos pequenos de pré-pós; Alert e Zonas têm estudos pequenos, em geral sem grupo controle.
O que os autistas dizem
A voz autista chegou antes da ciência. Temple Grandin descreveu nos anos 1990 a hipersensibilidade auditiva e tátil, a aversão ao abraço humano e, ao mesmo tempo, o desejo de pressão profunda que a levou a construir aos 18 anos a squeeze machine, inspirada no brete de contenção do gado: pressão regulada pela própria pessoa, que reduziu sua ansiedade e a ajudou a tolerar toque. Em The Autistic Brain denuncia que a pesquisa gastou décadas em teoria da mente e quase nada em sensorialidade, embora para muitos autistas o que mais incapacita seja som, luz, toque e a impossibilidade de atender a dois canais. Donna Williams descreveu fragmentação e um significado que "chega depois"; Bogdashina construiu sua taxonomia a partir desses relatos. Higashida, com fala mínima, explica que cobre os ouvidos não pelo volume, mas pela sensação de que o som "entra" sem filtro, e que precisa se mexer para saber onde o corpo está; a autoria por soletração assistida nunca foi validada de forma independente. No Brasil, Marcos Petry narra uma "organização sensorial distinta" com o som como eixo.
Onde a voz autista concorda com a clínica: as diferenças sensoriais são reais, corporais e centrais; hiper e hipo coexistem; o ambiente, e não a pessoa, é o primeiro alvo. A revisão de Robertson foi recebida como validação do que se dizia há décadas, e o modelo de Dunn, por tratar diferenças como variação a acomodar, é bem aceito.
Onde diverge: no enquadramento. A pesquisa participativa de Kapp, com 32 adultos autistas, mostrou que o stimming é sobretudo autorregulação: alivia sobrecarga sensorial, emocional e cognitiva, cria um estímulo previsível que abafa o imprevisível, muitas vezes é prazeroso, e a supressão forçada remove uma ferramenta; só stims que causam dano justificam intervenção, por substituição e nunca por extinção. Isso incide sobre a "disfunção" de Ayres, o "disorder" de Miller e Kranowitz (que a terceira edição troca por "differences"), o "quell repetitive behaviors" de Garland e o "expected/unexpected" das Zonas, lido como ensino de masking. A antologia de quadrinhos de Bex Ollerton mostra a sobrecarga pela própria forma (painéis que se desorganizam) e o prazer do stimming, sem nenhum clínico no livro. Neff propõe que o autocuidado comece por segurança sensorial e que unmasking é autocuidado; Price lembra que aceitar sobrecarga em silêncio é parte da máscara.
Heller e Schneider, adultas com defensividade sensorial ou SPD diagnosticadas tarde, defendem que o SPD existe fora do autismo. E há divergência interna: Grandin aceita o modelo médico e a linguagem de "sintomas"; Petry recusa "reclamar ou se fazer de vítima", postura que pode reforçar a expectativa de suportar ambientes hostis sem exigir adaptações.
Divergências e controvérsias
SPD é um diagnóstico? Miller, Kranowitz, Delaney, Schneider e Heller dizem que sim; o DSM-5, a CID-11 e a AAP (2012) dizem que não, vendo a sensorialidade como dimensão transdiagnóstica e, no autismo, como critério; Dunn fala em variação contínua. Avaliação: para autistas e pais a disputa é quase irrelevante, porque o B4 já garante o reconhecimento; o que vale de Miller é a nosologia descritiva, ainda a melhor linguagem para descrever um filho à escola.
Corrigir a criança ou mudar o ambiente? Ayres fala em "disfunção" e terapia em sala; Dunn, em padrões a acomodar; Bogdashina, Kapp e Voss, em respeitar a função do comportamento. Defensores da ASI respondem que a terapia segue a criança. Avaliação: a prática ayresiana bem feita é compatível com acomodação; o risco está nas estratégias aplicadas passivamente e nas metas de normalização.
Quanta evidência tem a integração sensorial? Bundy e Lane e a AOTA dão suporte qualificado à ASI com fidelidade; Sandbank não encontra efeito consistente; o NCAEP a lista como prática baseada em evidência. Avaliação: há consenso sobre o que é fraco (coletes, escovação, programas auditivos, lentes coloridas, que Heller e Bogdashina ainda tratam com simpatia) e dúvida honesta sobre a ASI; usar só com terapeuta formado, metas individualizadas e medição.
Limiar ou predição? Dunn explica a coexistência de hiper e hipo, não por que o mesmo estímulo é tolerável hoje e intolerável amanhã; os modelos preditivos explicam a flutuação, mas são acusados de explicar tudo. Avaliação: níveis diferentes; na prática, a lição preditiva (anunciar, tornar legível, dar previsibilidade antes de pedir flexibilidade) complementa a de Dunn (identificar o padrão por sentido).
Interocepção: o que está alterado? Garfinkel encontra discrepância entre sensibilidade e acurácia; Shah atribui a acurácia baixa à alexitimia; a tarefa de batimentos é contestada; Goodall amplia o construto para incluir emoções e trata alongamentos como treino interoceptivo, o que a dimensão alterada (metacognição) não necessariamente é. Avaliação: a observação de que autistas se sentem "muito corporais" e detectam mal sinais específicos é robusta nos relatos; os currículos de Mahler e Goodall são plausíveis, baratos e não patologizantes, mas são prática promissora, não comprovada.
Hipo é tão importante quanto hiper? A impressão clínica e os livros para adultos focam o polo hiper; Ben-Sasson mostrou que a maior diferença está na hiporresponsividade, menos visível e confundida com desatenção social. Avaliação: a criança que "não registra" precisa de mais intensidade, e laudos que só listam hipersensibilidades estão incompletos.
Programas de autorregulação ensinam regulação ou masking? Alert e Zonas legitimam ferramentas que são stims e dão vocabulário comum; mas o "just right" pode ser definido pela conveniência da escola, o "expected/unexpected" ensina a criança a se avaliar pelo olhar neurotípico, e ambos pressupõem que ela sente o corpo. Avaliação: usar como vocabulário em casa, descolado do enquadramento normativo, depois de um trabalho de interocepção.
Meltdown e "birra". Lipsky mantém a categoria de tantrum como comportamento intencional; Greene e Delahooke recusam a ideia de manipulação e leem a explosão como transbordamento fisiológico. Avaliação: a dicotomia ajuda a não punir o involuntário, mas vira rótulo se usada sem cuidado; a pergunta útil é "o que no ambiente e no corpo precedeu isso?".
Na prática
Para um adulto autista
- Mapeie o perfil por sentido, não em bloco. O questionário de Dunn dá quatro pontuações por sistema; o checklist de 232 itens de Bogdashina (SPCR) captura gestalt, mono-processamento e inconsistência, sem normas mas útil para hipóteses. Anote também o padrão de quem vive com você.
- Monte uma dieta sensorial adulta. Entradas reguladoras programadas ao longo do dia, como refeições (termo de Patricia Wilbarger). Para a maioria dos perfis a base é trabalho pesado e pressão profunda (carregar peso, empurrar, apertar, cobertor pesado), o input que mais organiza e menos desorganiza. Ferramentas baratas: fones com cancelamento de ruído, roupas sem costura, óculos escuros.
- Reduza carga antes de acrescentar prática. Segurança sensorial é a base da pirâmide: sono, alimentação respeitando seletividade, movimento sem ambiente social, orçamento de energia; pare de aceitar sobrecarga em silêncio.
- Trabalhe interocepção se a ansiedade "não tem objeto" ou se você só percebe fome, dor e cansaço no colapso. Note sinais, uma parte do corpo por vez, antes de nomear emoções; apertar e soltar, segurar gelo, subir escadas e notar o coração produzem sinais contrastáveis. Alexitimia é construto separado, presente em cerca de metade dos autistas.
- Use previsibilidade como ferramenta sensorial. O mesmo som previsto é tolerável; anuncie para si mesmo o que vem, escolha ambientes legíveis.
- No trabalho, peça adaptações razoáveis por escrito. A LBI define adaptação razoável como ajuste exigível quando não gera ônus desproporcional e trata a recusa como discriminação: ambiente de baixo estímulo, instruções escritas, fones, pausas, flexibilidade de horário e de reuniões. Scripts e decisões sobre disclosure em.
- Aja nos sinais precoces de sobrecarga. Stimming é ferramenta; suprimi-lo custa energia e antecipa a crise. Depois de um meltdown ou shutdown, não "processe" imediatamente.
- Sinais de alerta: "ansiedade resistente" nunca investigada pelo ângulo sensorial; dor ou doença relatada tarde; burnout após masking sensorial prolongado.
Para a criança autista (e para os pais)
- Entenda o mecanismo. Ayres: na criança defensiva o tato protetivo prevalece sobre o discriminativo, e pressão profunda e input proprioceptivo acalmam; apertar, bater, morder, empurrar e se jogar são a mesma busca. Fugir do barulho e apertar objetos é o perfil "busca alta e evitação alta".
- Transforme a bola em dieta sensorial, não em "brinquedo distraído". Biel e Peske: fidgets e bolas de apertar são úteis como parte de uma dieta planejada e inúteis como objeto aleatório. Distribua "lanches sensoriais" preventivos antes das tarefas difíceis e nas transições, em vez de esperar o pico; Yack chama isso de entrada reguladora antes da demanda.
- Regra SAFE: sensório-motora, apropriada, divertida, fácil, com a criança no controle.
- Observe se a busca regula ou desorganiza. Se aperta e se acalma, é busca reguladora; se aperta, bate e escala sem se saciar, é o craving de Miller, que pede input estruturado (começo, meio e fim, resistência graduada), não só mais bola.
- Ensine a criança a sentir o que a bola faz. É o passo que transforma hábito em ferramenta consciente. Mahler: apertar com força e soltar é um "experimento de área de foco" para mãos e músculos; a criança nota o antes e o depois, registra num contorno do corpo e só depois conecta a emoção e a ação ("quando meus músculos estão duros, apertar a bola e empurrar a parede ajuda"). Com o tempo percebe a tensão antes de virar crise e usa a bola de propósito, mais cedo. O adulto modela em voz alta a própria interocepção. Goodall oferece atividades gratuitas de dois a cinco minutos para a escola.
- Depois, e só depois, um vocabulário de estados. Alert ("meu motor está alto, baixo, no ponto") ou Zonas, em casa, como língua comum, sem a lógica de comportamento "esperado" e sem vermelho como castigo.
Avaliação e laudo. Peça avaliação por terapeuta ocupacional com o Perfil Sensorial 2, incluindo o formulário do professor, e observação direta, porque o questionário mede modulação e não discriminação ou práxis. Leia o laudo por seção sensorial (qual canal) antes de ler por quadrante; desconfie de laudos que listam só hipersensibilidades. Checklists por sentido estão em Kranowitz; o formato "sinal, explicação, apoio" de Voss serve para consulta rápida, lembrando que nem todo comportamento é sensorial.
O que evitar. Forçar exposição; interromper stims como meta; coletes de peso, escovação sem treinamento, programas auditivos e lentes coloridas; punir o meltdown, que não é escolha; usar "cantinho da calma" como castigo com outro nome.
Rotinas. Roupas, banho, cabelo e unhas, dentes, alimentação por textura e cheiro, sono com pressão profunda: Biel e Peske têm uma seção por rotina, Yack a versão para autismo. Mahler explica fracassos de treino de banheiro por falta de sinal, não de vontade.
Escola. Acomodações com suporte na literatura: assento alternativo, pausas de movimento, trabalho pesado antes de tarefas de mesa, fones, redução de luz, aviso antes de transições e alarmes, espaço de recuo. O School Companion do SP2 gera quatro fatores escolares que viram pedido direto à escola. O livro ilustrado de Jen Malia, em que a professora oferece luvas e a escolha de quando tocar o slime, abre a conversa com a turma.
Pais autistas. Dunn pede que o pai identifique o próprio padrão antes de interpretar o do filho: pai evitador e filho buscador geram conflito que parece de comportamento. O adulto desregulado não corregula; o "orçamento corporal" dos pais é parte da intervenção. Para um pai que também se regula por pressão, isso é informação, não culpa: o mesmo kit serve aos dois.
Sinais de alerta. Náusea, palidez e excitação que não baixa em atividades vestibulares; dor não relatada; acidentes de banheiro tardios; meltdowns "sem gatilho" repetidos no mesmo horário ou ambiente (procurar o acúmulo); recusa escolar crescente.
Brasil
O instrumento de referência é o Perfil Sensorial 2, adaptado pela Pearson Clínica Brasil por volta de 2017, com normas norte-americanas e validade nacional ainda em construção; é o padrão dos terapeutas ocupacionais em avaliações de TEA. Nenhum dos livros centrais tem edição brasileira (Dunn, Ayres, Miller, Kranowitz, Biel, Mahler, Bogdashina), e "interocepção" ainda é pouco conhecida na clínica nacional. Em português há Grandin, O cérebro autista (Record, 2015), Higashida, O que me faz pular (Intrínseca, 2014) e o relato de Petry.
Na literatura técnica nacional, o capítulo de Aline Momo e Claudia Silvestre no livro de Schwartzman e Araújo (2011) foi um dos primeiros a tratar o sensorial como eixo próprio. O manual da SBP (2019) descreve hiper e hiporresponsividade e indica avaliação por terapeuta ocupacional, mas lista integração sensorial ao lado de ABA e Denver sem hierarquizar evidência. A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde (2015) a inclui entre oito "tecnologias de cuidado" a escolher caso a caso.
Nos direitos, a Lei 12.764/2012 menciona "comportamentos sensoriais incomuns" entre os padrões repetitivos, sem tratar o perfil sensorial como eixo, e garante acompanhante especializado em classe comum mediante comprovada necessidade. Um laudo com Perfil Sensorial 2 é o documento que sustenta esses pedidos.
Perguntas em aberto
- Os sintomas sensoriais diminuem com a idade ou os adultos aprendem a esconder? Faltam estudos longitudinais e autorrelato adulto.
- Quanto do relato de pais corresponde à experiência da criança e a medidas psicofísicas?.
- A integração sensorial com fidelidade funciona, para quem e em quais desfechos? Os ensaios são pequenos e as metanálises divergem.
- A interocepção alterada é do autismo ou da alexitimia, e as tarefas de batimento cardíaco medem o que dizem medir? Treinar interocepção melhora regulação fora de estudos de pré-pós?
- O sensorial é causa das dificuldades sociais, consequência, ou os dois expressam um mesmo mecanismo (E/I, precisão preditiva)?
- Como estender instrumentos e currículos a autistas não falantes, com deficiência intelectual e fora do mundo anglófono, sub-representados em toda a literatura lida.