Capítulo 6 · Diagnóstico
Avaliação e instrumentos: como se chega (e como não se chega) a um diagnóstico
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Diagnosticar autismo não é aplicar um teste. É construir, com várias fontes e vários profissionais, um perfil de como a pessoa se comunica, se relaciona, pensa, percebe e funciona no dia a dia, comparar esse perfil com o DSM-5-TR ou a CID-11 e traduzir o resultado em plano de apoio. ADOS-2 (observação) e ADI-R (entrevista com o cuidador) são peças do diagnóstico, não o diagnóstico; a própria Lord insiste nisso. O M-CHAT-R/F levanta suspeita, não fecha diagnóstico; escalas de pais (CARS-2, SRS-2) têm alta sensibilidade e baixa especificidade; testes de QI só Wechsler subestimam a inteligência autista em média 30 pontos percentis em relação ao Raven; o Perfil Sensorial 2 documenta o critério sensorial que ADOS e ADI-R ignoram.
Em adultos, e sobretudo em mulheres, esse arsenal funciona pior: foi calibrado em meninos, depende de um informante da infância que muitas vezes não existe e lê mal quem aprendeu a mascarar. O DSM-5-TR admite que os sinais "podem ser mascarados por estratégias aprendidas". No Brasil, o SUS prevê triagem na atenção básica e diagnóstico interdisciplinar em CER e CAPSi, mas quase não usa ADOS-2 e ADI-R, não tem via adulta e convive com dois documentos federais de lógicas distintas; para plano de saúde e Ciptea, o que vale é o laudo com CID.
O que é e como se manifesta
A avaliação tem propósitos diferentes que exigem instrumentos diferentes: rastreio (quem merece investigação), diagnóstico (a pessoa preenche os critérios?), planejamento de apoio, monitoramento de progresso e elegibilidade a serviços ou benefícios. Confundir esses propósitos é a fonte de boa parte dos laudos ruins: um M-CHAT positivo não é diagnóstico, um escore do ADOS não é "grau", um QI não é nível de suporte.
O modelo de referência é a avaliação compreensiva multimétodo: observação direta, entrevista com quem conviveu com a pessoa desde cedo, testes padronizados e informação de mais de um contexto (casa, escola, trabalho), integrados por julgamento clínico. As diretrizes britânicas concretizam a equipe: pediatra ou psiquiatra, fonoaudiólogo, psicólogo, com acesso a terapeuta ocupacional, professor e assistente social, e um coordenador de caso por família. O documento brasileiro de 2014 descreve equipe equivalente (médico, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional).
As etapas, em qualquer idade, são as mesmas: (1) anamnese e história do desenvolvimento, de preferência com informante; (2) observação do comportamento social e comunicativo; (3) avaliação de linguagem, cognição, funcionamento adaptativo, funções executivas e processamento sensorial; (4) investigação de condições co-ocorrentes e diagnóstico diferencial; (5) devolutiva, laudo e plano. O NICE pede que o produto seja um "perfil de necessidades" com forças, dificuldades, sensorialidade e condições associadas, e não um rótulo isolado; Matson dedica um capítulo inteiro a como escrever um laudo que sirva a famílias, escolas e seguradoras.
Na infância a avaliação é um caminho: vigilância em toda consulta, triagem aos 18 e 24 meses, encaminhamento imediato diante de sinais, diagnóstico confiável a partir dos 2 anos nas apresentações claras. A idade mediana do diagnóstico, porém, segue em torno de 4 anos nos EUA e de 4 a 5 anos segundo a SBP. Na vida adulta a avaliação é um obstáculo: critérios infantis e masculinos, ausência de informante, rótulos psiquiátricos prévios, masking e escassez de clínicos treinados.
O que a ciência diz
Rastreio
O M-CHAT-R/F é o rastreio padrão de 16 a 30 meses: 20 itens respondidos pelos pais, aplicáveis pelo pediatra sem treinamento, mais uma entrevista de seguimento que existe para reduzir a alta taxa de falsos positivos. A AAP recomenda aplicá-lo aos 18 e 24 meses. O NICE não recomenda triagem populacional e prefere reconhecimento por sinais; o primer da Nature registra o debate como aberto. Para adultos sem deficiência intelectual, o NICE sugere o AQ-10, cuja sensibilidade é questionada em mulheres e em quem camufla. O SUS anexou duas ferramentas de uso livre: o IRDI (31 indicadores de 0 a 18 meses, de base psicanalítica) e o M-CHAT original de 23 itens.
Observação e entrevista: ADOS-2 e ADI-R
O ADOS-2 é uma sessão semiestruturada de 40 a 60 minutos em que o examinador cria situações planejadas ("presses") para provocar iniciativa social, atenção compartilhada, reciprocidade e imaginação: bolhas de sabão, festa de aniversário da boneca, um livro sem palavras, conversa sobre amizades e solidão. O módulo é escolhido pela linguagem expressiva, do Módulo T (12 a 30 meses) ao Módulo 4 (adultos fluentes). Cerca de 30 itens codificados de 0 a 3 alimentam um algoritmo (Afeto Social e Comportamento Restrito e Repetitivo) que classifica em "autismo", "espectro" ou "não espectro"; os Módulos 1 a 3 geram ainda o Escore Comparativo de 1 a 10. A psicometria reporta sensibilidade e especificidade geralmente acima de 0,80 a 0,90, caindo em deficiência intelectual grave, transtornos de linguagem e outras condições psiquiátricas; a SBP cita 94% e 80%. O próprio manual reconhece as limitações: recorte de 45 minutos com um estranho, subobservação de repetitivos e sensoriais, Módulo 4 com base normativa pequena e algoritmo antigo, sensibilidade menor em meninas verbais, adultos com QI alto e pessoas que camuflam, treinamento caro e certificado.
O ADI-R é a contraparte: entrevista semiestruturada de 93 itens, de 1,5 a 3 horas, com o cuidador principal, cobrindo a tríade de Wing (interação social recíproca, comunicação, comportamentos restritos e repetitivos) e a idade de início. Codifica o comportamento atual e o período de maior anormalidade, ancorado nos 4 a 5 anos. O algoritmo exige ultrapassar quatro cortes (A = 10, B = 8 para verbais e 7 para não verbais, C = 3, D = 1) e não tem categoria intermediária de "espectro", o que levou pesquisadores a regras ad hoc. A combinação ADI-R + ADOS + julgamento clínico é mais acurada que qualquer um isolado: a entrevista traz o histórico e os repetitivos que a observação não vê; a observação corrige o viés de memória do cuidador. A SBP registra para o ADI-R sensibilidade de 52% e especificidade de 84%, coerente com a crítica de que o algoritmo opera a definição de 1994 e perde apresentações sutis. Para adultos sem cuidador disponível, "o instrumento simplesmente não se aplica", o que ajudou a criar a geração perdida. O NICE cita ainda 3Di, AAA e DISCO, todos "quando há dúvida ou complexidade, não como condição obrigatória".
Escalas de sintomas por informante
CARS-2 (15 itens, 20 a 30 minutos; SBP cita 80% e 88%), GARS-2/3 (10 minutos; 65% e 81%), SRS-2 e ASRS são escalas preenchidas por pais, professores ou clínico. A regra de Goldstein e Ozonoff: escalas respondidas por pais têm alta sensibilidade e baixa especificidade, servem para não perder casos, não para confirmar.
Autorrelato em adultos: AQ, RAADS-R, CAT-Q
Lai e Baron-Cohen concluem que o AQ e outras triagens "têm utilidade limitada em contexto clínico" e que o diagnóstico adulto exige avaliação multidimensional. Attwood lista o ASAS (de Garnett e Attwood), o AQ e o CAST como triagens.
O CAT-Q não é um teste de autismo: é um questionário de 25 itens, em três subescalas (compensação, masking, assimilação), que mede a experiência autorrelatada de camuflar. Tem alfa de 0,94, teste-reteste adequado em três meses e invariância de medida entre gêneros e entre autistas e não autistas; mulheres autistas pontuaram em média cerca de 124, homens autistas 110, não autistas entre 90 e 97. O "ponto de corte de 100" que circula em sites clínicos não vem do paper. Seu uso correto é organizar a conversa de avaliação de um adulto que "não parece autista", nunca sugerir ou afastar autismo isoladamente. O método concorrente, a discrepância entre traços internos (AQ, RMET) e comportamento observado (ADOS), foi o que permitiu a Lai e colegas quantificar que, numa amostra de 60 adultos pareados, as mulheres camuflavam mais em média, com grande sobreposição individual.
Cognição, funcionamento adaptativo e funções executivas
A escolha do teste de inteligência depende da linguagem e da cooperação: WISC-V, SON-R, Leiter ou Raven. O resultado típico é o perfil desigual, com picos (Cubos) e vales (compreensão verbal, velocidade), que Bosa e Teixeira chamam de assinatura do espectro. O estudo de Dawson, Soulières, Gernsbacher e Mottron com 38 crianças autistas mostrou escores no Raven em média 30 pontos percentis acima dos do Wechsler, e mais de 70 em alguns casos, sem discrepância em crianças típicas; parte das crianças classificadas na faixa de deficiência intelectual pelo Wechsler ficou acima do percentil 50 no Raven. As replicações moderaram o achado (vantagem maior em autistas com atraso de fala, menor em perfis "Asperger"), mas a consequência prática é consensual: uma avaliação séria inclui um teste não verbal de raciocínio.
O funcionamento adaptativo (o que a pessoa faz de fato no dia a dia) é avaliado por Vineland e ABAS e é a base real do nível de suporte, mais que o QI. Funções executivas entram por baterias e por escalas ecológicas como o BRIEF. A Comissão Lancet pede que toda avaliação inclua funcionamento adaptativo, saúde mental e contexto familiar, não só os critérios.
Sensorial e linguagem
O Sensory Profile 2 (formulários por idade, 0 a 14 anos e 11 meses; Child com 86 itens; School Companion para o professor) classifica a criança nos quadrantes Busca, Evitação, Sensibilidade e Registro e por sistema sensorial, em cinco faixas normativas. Não diagnostica; serve para documentar o critério B4 do DSM-5, distinguir sobrecarga de "problema de comportamento" e orientar acomodações. Não avalia interocepção nem praxia, e a adaptação brasileira (Pearson Clínica Brasil) tem normas menores. Henderson e colegas incluem oito sistemas sensoriais, com interocepção, na avaliação afirmativa.
A avaliação de linguagem cobre receptiva, expressiva e pragmática, prosódia e ecolalia, e faz dois diferenciais que só a fonoaudiologia faz bem: transtorno do desenvolvimento da linguagem e o Transtorno da Comunicação Social (Pragmática), criado pelo DSM-5 para o déficit pragmático sem comportamentos restritos. A CID-11 exige ainda avaliar "linguagem funcional" para o subcódigo 6A02.x, o que muitos serviços não fazem.
Adultos e mulheres
A prevalência adulta é semelhante à infantil, cerca de 1%, e quase ninguém na coorte de Brugha (2011) tinha diagnóstico prévio. As barreiras são conhecidas: critérios infantis, ausência de informante, masking, rótulos substitutos (esquizofrenia, personalidade, TOC, ansiedade social, bipolar, TDAH, transtornos alimentares) e falta de serviços. A razão entre sexos, 4:1 na tradição, aproxima-se de 3:1 quando o viés de reconhecimento é corrigido; a revisão global ainda registra 4,2 e nota que pode estar inflada. Happé e Lai mostram o viés dos instrumentos e o perfil feminino de interesses "aceitáveis" e imitação; Hendrickx descreve a "amiga-intérprete", a rigidez que aparece em casa e não na escola, e o diagnóstico desencadeado pelo do filho.
Mandy resume: a avaliação precisa ir além do ADOS e investigar esforço, história e custo interno. DSM-5-TR e CID-11 convergem: sinais podem não se manifestar até que as demandas excedam as capacidades, e a CID-11 discute o diagnóstico adulto por história retrospectiva.
Diferencial e co-ocorrência
O DSM-5-TR lista: Rett, mutismo seletivo, transtornos de linguagem e TCS, deficiência intelectual sem TEA, movimento estereotipado, TDAH, esquizofrenia, ansiedade, TOC, personalidade esquizoide e esquizotípica, apego reativo. Cerca de 70% têm ao menos uma condição co-ocorrente e cerca de 40% duas ou mais. Gillberg vai além: antes dos 5 anos, a coocorrência é a regra, e serviços organizados por diagnóstico único produzem avaliações incompletas.
Critérios úteis: rituais egossintônicos (autismo) versus compulsões egodistônicas (TOC); na ansiedade social autista o déficit de habilidade precede o medo; concretude e literalidade podem ser lidas como delírio. O erro inverso tem nome, diagnostic overshadowing: atribuir tudo ao autismo e deixar de tratar ansiedade, depressão ou TDAH. Três confundidores merecem avaliação própria: alexitimia, em cerca de metade dos autistas contra 10% da população geral, que explica boa parte dos "déficits emocionais" atribuídos ao autismo; trauma, com TEPT provável em 32% de adultos autistas contra 4% de controles numa amostra e acima de 40% dos expostos em outra, muitas vezes por eventos sociais que o critério A do DSM não reconhece; e TDAH, cuja coocorrência só o DSM-5 permitiu e cujo "mascaramento cruzado" é a tese de Sadiq.
Exames: não há exame que confirme autismo. Testes genéticos (microarray, X frágil, exoma) são indicados com dismorfias, deficiência intelectual ou história familiar; EEG só com suspeita de epilepsia; metais pesados, alergias e "biomarcadores" comerciais são rejeitados.
O que os autistas dizem
A antologia da ASAN resume o valor do diagnóstico adulto numa frase de A.J. Odasso: passar a vida "se perguntando o que há de errado sem nunca saber por quê". Saber por quê reorganiza decisões de trabalho, saúde e descanso; o diagnóstico é defendido como direito e recurso, não como rótulo. Selma Sueli Silva, diagnosticada aos 53 anos depois da filha, mostra o padrão em cascata que Hendrickx descreve e lê a própria vida "de trás pra frente". Beardon prefere "identificação" a "diagnóstico" e acrescenta uma condição: só vale a pena se mudar algo no ambiente; identificação sem adaptação é injusta.
Sobre o processo em si, a crítica é direta. Os participantes de Hull descrevem o paradoxo de que camuflar bem é punido com invisibilidade clínica: "você não parece autista", diagnóstico negado ou atrasado, necessidades desacreditadas. Pearson e Rose pedem aos clínicos que não interpretem a capacidade de mascarar como ausência de necessidade de suporte, e criticam a psicometria da camuflagem por tratar como traço individual o que é resposta a estigma. Price vai mais longe: os critérios foram calibrados em meninos brancos de classe média, e diante das barreiras de acesso a autoidentificação é legítima. A comunidade vê o ADOS-2 com ambivalência: dá acesso a diagnóstico confiável, mas foi calibrado em crianças (em geral meninos) e captura mal o adulto que aprendeu a mascarar. Michelle Dawson, pesquisadora autista sem diploma, é coautora do estudo que mostrou a subestimação da inteligência autista pelos testes verbais.
Convergência: Henderson, Mandy e Lai dizem, em linguagem clínica, o que Hull ouviu dos participantes. Divergência: a clínica trata a avaliação como porta obrigatória para apoio; Price e parte do movimento a tratam como privilégio de quem tem acesso, enquanto os documentos brasileiros condicionam direitos a um laudo com CID. E há a linguagem: "sintoma", "gravidade" e "alto/baixo funcionamento" são termos que a comunidade pede para trocar por descrição concreta de habilidades e necessidades de suporte.
Divergências e controvérsias
Padrão-ouro ou peça do quebra-cabeça. A SBP chama ADOS-2 e ADI-R de referência e compara índices psicométricos; clínicas e laudos brasileiros tratam o ADOS como "nota de gravidade". Lord, Goldstein e o NICE dizem o contrário: instrumentos apoiam o julgamento clínico, não o substituem, e o Escore Comparativo mede intensidade de sinais observados, não necessidade de apoio. Avaliação do autor: a posição dos criadores é a correta; um laudo que repousa num único instrumento é um laudo incompleto.
Validade do construto de camuflagem. O CAT-Q sustentou a tese do subdiagnóstico feminino, mas Fombonne (2020) e Williams (2022) argumentam que ele não distingue camuflar de ansiedade social ou de competência social adquirida, e populações clínicas não autistas pontuam alto. Lai e Hull defendem a convergência entre autorrelato e discrepância; Pearson e Rose criticam ambos por individualizar o fenômeno. Avaliação: a crítica psicométrica é procedente e o CAT-Q não deve decidir nada sozinho, mas a conclusão clínica (perguntar ativamente por esforço e custo) sobrevive à crítica, porque não depende do questionário.
Price defende a autoidentificação e é apontado como vetor da onda de autodiagnóstico. No Brasil, Assumpção tem criticado a "inflação diagnóstica" e seu livro pesa o diferencial, e a Linha de Cuidado do SUS alerta para a "banalização do diagnóstico" e para a "economia dos valores" em que o rótulo estigmatiza e dá acesso ao mesmo tempo. Avaliação: os dois erros existem e têm custos assimétricos; o falso negativo em adulto costuma significar décadas de rótulos errados e tratamentos inúteis, o falso positivo significa tratar como autismo o que é trauma ou TDAH. A proteção contra ambos é a mesma: diferencial feito a sério, com história de desenvolvimento e múltiplas fontes.
Idade mínima. A Linha de Cuidado afirma que o diagnóstico definitivo "só pode ser firmado após os três anos". O DSM-5-TR, o seminário do Lancet e o Módulo T do ADOS-2 dizem que o diagnóstico é confiável a partir dos 2 anos nas apresentações claras, com o Módulo T devolvendo "faixas de preocupação" antes dos 30 meses justamente pela instabilidade. Avaliação: a afirmação brasileira está desatualizada; a prática defensável é diagnóstico provisório entre 2 e 3 anos com reavaliação, e intervenção iniciada na suspeita, como a AAP e a SBP recomendam.
Triagem universal. AAP a favor, NICE e USPSTF contra ou sem evidência suficiente. Avaliação: no Brasil, com idade de diagnóstico alta e vigilância irregular, a triagem com entrevista de seguimento tem mais a ganhar que a perder.
O mesmo vale para níveis e códigos: o DSM diz que níveis não devem decidir elegibilidade, e no Brasil viram "grau"; a CID-11 estratifica por deficiência intelectual e linguagem funcional, o que não mede necessidade de apoio. O laudo deve descrever funcionamento adaptativo, não só o código (o tema segue no capítulo sobre níveis de suporte).
Na prática
Para um adulto autista
O que uma avaliação adulta séria contém, pelas diretrizes e pela literatura: história do desenvolvimento (com informante se houver: pai, mãe, irmão mais velho, boletins, fotos, relatórios escolares antigos), funcionamento atual em vários contextos, condições co-ocorrentes, diferencial, funcionamento adaptativo e necessidades de apoio, e um laudo escrito. Instrumentos estruturados (ADOS-2 Módulo 4, ADI-R, autorrelatos) são complemento.
Como se preparar: montar uma linha do tempo da infância à vida adulta com exemplos concretos; listar diagnósticos e tratamentos anteriores, porque rótulos substitutos são parte do quadro, não uma objeção a ele; registrar o esforço e o custo das interações (ressaca social, recuperação, roteiros) e não só o comportamento, que é exatamente o que o avaliador precisa ouvir; responder o CAT-Q como mapa para a conversa, sem tratar o escore como veredito.
O que questionar: um Módulo 4 "não espectro" não encerra a questão se há masking; descartar o diagnóstico porque "você não parece autista", mantém contato visual ou tem emprego é usar a aparência como evidência. Pedir o diferencial explícito com TDAH, trauma e alexitimia e um laudo com código CID (6A02.x ou F84.x) e descrição de forças e necessidades: é ele que abre Ciptea, plano e ajustes no trabalho. Depois, lembrar de Beardon: o diagnóstico só rende se mudar o ambiente.
Sinais de avaliação ruim: diagnóstico fechado com um teste ou com questionário online; QI usado como "funcionamento"; exames de metais pesados, dietas ou "biomarcadores"; ADOS usado como nota de gravidade; laudo sem diferencial nem co-ocorrências.
Para a criança autista (e para os pais)
Não esperar "o tempo da criança": qualquer atraso ou M-CHAT alterado deve levar a orientação, reavaliação em um mês e encaminhamento se persistir; intervenção começa na suspeita, não no laudo. O NICE fixa três meses entre encaminhamento e início da avaliação como meta, descumprida até no Reino Unido.
O que esperar na sala: no ADI-R, 2 a 3 horas de perguntas sobre a infância com pedido de exemplos concretos; no ADOS-2, uma sessão de brincadeira em que a ausência de um comportamento (olhar para o adulto quando as bolhas acabam) é o dado. Levar relatório da escola: o NICE pede observação em mais de um contexto, e meninas costumam mostrar rigidez e sensorialidade em casa e passar despercebidas na escola. Pedir linguagem com pragmática, teste de inteligência com componente não verbal, funcionamento adaptativo e Perfil Sensorial 2 com a versão do professor, que separa a criança que "não registra" da que "evita". Exigir perfil de necessidades, com forças, e não só um código.
Para o pai autista de uma criança autista, dois avisos. O ADI-R depende da memória e da interpretação do cuidador; pais autistas podem gerar falsos negativos porque não estranham o que lhes é familiar; vale trazer vídeos, cadernetas e a perspectiva de outro adulto. E a recorrência entre irmãos fica próxima de 20%, o que justifica vigilância sem alarmismo. A avaliação do filho é, com frequência, o início da avaliação de um dos pais.
Sinais de alerta: diagnóstico fechado num único encontro; promessas de "impedir a manifestação completa" do autismo, que extrapolam a evidência; escalas de pais usadas como confirmação; "comportamento desafiador" tratado como alvo sem investigar dor, ambiente e comunicação; diagnóstico único feito cedo sem olhar TDAH, linguagem e coordenação, quase sempre provisório.
Brasil
SUS. O fluxo começa na atenção básica (UBS, ESF, NASF), com vigilância do desenvolvimento, Caderneta da Criança, IRDI e M-CHAT, e segue para duas portas de gramáticas distintas: os Centros Especializados em Reabilitação, regidos pelas Diretrizes de 2014, e os CAPSi, regidos pela Linha de Cuidado de 2015. Nos dois, o diagnóstico é processo de equipe interdisciplinar, com entrevista detalhada e observação (as Diretrizes trazem roteiros prontos) e classificação por CID-10 e CIF; a Linha acrescenta observação livre e em grupo, profissional de referência e a advertência sobre banalização. Nenhum adota ADOS-2 ou ADI-R, raros no SUS por custo de kit e treinamento; CER são poucos e desiguais, e o CAPSi existe em poucas centenas de municípios, com equipes sem formação específica. A Lei 13.438/2017 obriga protocolos de risco psíquico nos primeiros 18 meses. Via de diagnóstico adulto praticamente não existe; a Lei 15.256/2025 inseriu na Lei Berenice Piana uma diretriz de diagnóstico de adultos e idosos, reconhecendo a geração perdida no texto legal sem serviço correspondente.
Pediatria. O manual da SBP (2019) é o documento mais prescritivo: vigilância em toda consulta, M-CHAT-R/F anexado em português, fluxo de reavaliação em um mês, comparativo de instrumentos, lista de diferenciais e exame físico; sua linguagem é deficitária, indica material da Autism Speaks e diz pouco sobre meninas, adultos e o caminho no SUS.
Instrumentos disponíveis. ADOS-2 e ADI-R têm adaptação brasileira (Hogrefe CETEPP) com amostras normativas pequenas; o Perfil Sensorial 2 saiu pela Pearson Clínica Brasil com validade em construção; o CAT-Q tem tradução a conferir antes de uso clínico. A referência nacional em avaliação psicológica é Bosa e Teixeira: hora lúdica diagnóstica adaptada para observar atenção compartilhada e reciprocidade (o papel do ADOS onde ele não chega), Vineland e ABAS, escolha de WISC, SON-R, Leiter ou Raven conforme linguagem, e protocolos reais de dois serviços paulistas; a edição de 2025 "no curso de vida" promete cobrir adultos. Rocca, Pantano e Serafim mapeiam o que cada profissão avalia e abrem a avaliação forense; Bordini organiza o diferencial em pares "TEA e X". Para adultos, Del Porto e Assumpção (Jabuti 2024) centram o diferencial com psicose, personalidade e TOC, mas discutem pouco os instrumentos validados para adultos no país, lacuna real. Kerches cobre o diagnóstico na adolescência e vida adulta e a neuropsicologia no diagnóstico tardio; Pereira e Castro reúnem a primeira coletânea nacional sobre o espectro feminino, com a tese de que avaliar mulheres "requer especialização", tema que Camargos abriu em 2013 sem o vocabulário de camuflagem. O checklist de Gaiato para adolescentes é inventário clínico sem validação psicométrica publicada.
Códigos, carteira e plano. O laudo brasileiro usa a CID: ainda F84.x na maioria dos sistemas, 6A02.x na CID-11, cuja migração é lenta e exige reavaliar funcionamento intelectual e de linguagem. A Ciptea exige laudo médico com código CID, o que deixa de fora adultos sem acesso a avaliação. Para o plano de saúde, a RN 539/2022 cobre "qualquer método ou técnica indicado pelo médico assistente" para o grupo F84, sem limite de sessões, e o Tema 1.295 do STJ (2026) tornou abusiva a limitação de sessões; na prática, o laudo com CID e a prescrição médica são os documentos que destravam a cobertura, e as negativas migraram para auditorias de laudo e "rede suficiente". A definição legal da Lei 12.764 usa "ou" entre os dois domínios e ignora o sensorial, divergindo do DSM e da CID; perícias às vezes exigem mais do que a lei pede.
Perguntas em aberto
- Não há instrumento de observação validado para adultos camufladores; o Módulo 4 do ADOS-2 segue com base normativa pequena e algoritmo antigo.
- A especificidade da camuflagem como construto, e portanto o que o CAT-Q mede, continua em disputa.
- Instrumentos de ansiedade, depressão e TEPT não foram validados em autistas; alexitimia e interocepção distorcem o autorrelato, e o trauma causado por serviços quase não entra neles.
- Biomarcadores não têm uso clínico; a esperança de subtipos genéticos a partir de fenótipos bem medidos não se cumpriu.
- Faltam normas brasileiras robustas para ADOS-2, ADI-R, Perfil Sensorial 2 e para qualquer instrumento de adultos; falta epidemiologia nacional; a CID-11 sem contagem polítética exige treinamento que o país não oferece em escala.
- Como avaliar quem não pode ser testado por nenhum instrumento: a subestimação da inteligência nesse grupo é hipótese, não achado.