Divergentes

Capítulo 4 · Diagnóstico

Critérios diagnósticos: DSM-5-TR e CID-11

20 min de leitura

Em uma página

Desde 2013 (DSM-5) e 2022 (CID-11), o autismo é uma única condição do neurodesenvolvimento definida por duas dimensões: diferenças persistentes na comunicação e interação social, e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, que agora incluem explicitamente o sensorial. Os dois manuais aposentaram os subtipos do ciclo anterior (autismo infantil, síndrome de Asperger, TGD-SOE, transtorno desintegrativo) e os substituíram por qualificadores: o DSM-5-TR por especificadores e três níveis de suporte, a CID-11 por subcódigos que cruzam deficiência intelectual e linguagem funcional.

Os dois concordam no essencial e divergem no método. O DSM exige uma contagem (os três subitens do critério A e ao menos dois dos quatro do critério B); a CID-11 descreve um protótipo e confia no julgamento clínico. Ambos admitem que os sinais "podem não se manifestar plenamente até que as demandas sociais excedam as capacidades", e o DSM acrescenta "ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas", a frase que abriu a porta ao diagnóstico de adultos.

A fusão do Asperger foi consequência de trinta anos de pesquisa que não conseguiu separá-lo com confiabilidade do autismo sem deficiência intelectual; em 2018 a história de Hans Asperger em Viena tornou o epônimo também eticamente insustentável. O diagnóstico continua clínico: instrumentos como ADOS-2 e ADI-R apoiam, não substituem, e foram calibrados em crianças e na tríade de 1994. O diferencial que mais importa para um adulto é com TOC, ansiedade social, transtornos de personalidade e psicose; para uma criança, com deficiência intelectual, transtornos de linguagem e TDAH, que muitas vezes não é alternativa, mas companhia.

O que é e como se manifesta

O DSM-5-TR, critério por critério

O capítulo de Transtornos do Neurodesenvolvimento do DSM-5-TR (2022, edição brasileira Artmed 2023) mantém os critérios de 2013 quase intactos.

Critério A. Déficits persistentes na comunicação e interação social, em múltiplos contextos, manifestados por todos os três subitens: (1) reciprocidade socioemocional (abordagem social atípica, conversa de ida e volta, partilha de interesses e afetos); (2) comunicação não verbal (integração entre fala e gesto, contato visual, expressão facial); (3) desenvolver, manter e compreender relacionamentos (ajustar o comportamento ao contexto, brincadeira imaginativa compartilhada, fazer amigos, interesse por pares). A revisão de 2022 trocou "as manifested by the following" por "all of the following" para encerrar a ambiguidade.

Critério B. Ao menos dois de quatro: (1) movimentos, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (alinhar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas); (2) insistência na mesmice, adesão inflexível a rotinas, padrões ritualizados; (3) interesses fixos e altamente restritos, anormais em intensidade ou foco; (4) hiper ou hiporreatividade sensorial ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente.

Critério C. Presença no período precoce do desenvolvimento, com a cláusula de que os sinais podem só aparecer quando as demandas sociais excedem as capacidades, ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas. Critério D. Prejuízo clinicamente significativo. Critério E. Não melhor explicado por deficiência intelectual ou atraso global; as duas condições coocorrem, e para diagnosticar ambas a comunicação social deve estar abaixo do esperado para o nível geral de desenvolvimento. Há ainda a nota de "grandfathering": quem tinha diagnóstico DSM-IV bem estabelecido de transtorno autista, Asperger ou TGD-SOE recebe o diagnóstico de TEA.

Especificadores. Com ou sem deficiência intelectual; com ou sem comprometimento de linguagem; associado a condição genética ou médica conhecida ou a fator ambiental; associado a outro transtorno do neurodesenvolvimento, mental ou comportamental; com catatonia. Os níveis de suporte são registrados separadamente para cada domínio: nível 1 "exigindo apoio", nível 2 "apoio substancial", nível 3 "apoio muito substancial". O manual diz que os níveis não devem decidir elegibilidade a serviços; na prática, decidem.

A CID-11, código 6A02

A CID-11 (em vigor desde 2022; CDDR de 2024) define os mesmos dois domínios, mas sem contagem polítética: descreve características essenciais e deixa a decisão ao clínico. A estratificação não é por nível de suporte, e sim por dois eixos: 6A02.0 sem transtorno do desenvolvimento intelectual e com linguagem funcional leve ou intacta; 6A02.1 com DI e linguagem leve ou intacta; 6A02.2 sem DI e com comprometimento de linguagem; 6A02.3 com ambos; 6A02.4 sem DI e sem linguagem funcional; 6A02.5 com DI e sem linguagem funcional; 6A02.Y e 6A02.Z para "outro" e "não especificado". "Linguagem funcional" é uso instrumental (pedir, comentar), não pragmática nem prosódia. Há um qualificador opcional de regressão, que absorve o antigo transtorno desintegrativo, e a síndrome de Rett saiu do capítulo para as anomalias do desenvolvimento.

Como aparece na infância e na vida adulta

Na criança pequena, o quadro é o que Wing descreveu: diferenças no apontar, no olhar compartilhado, no uso do adulto como ferramenta, na atenção conjunta e no faz de conta, com sinais consistentes entre 12 e 24 meses. Os subtipos sociais de Wing (isolado, passivo, ativo-mas-estranho, e nos adultos o formal e afetado) descrevem estilo de interação, não gravidade, e uma pessoa pode mudar de subtipo ao longo do desenvolvimento.

No adulto, a mesma díade aparece como conversa em monólogo ou roteiro, turnos regidos por regras aprendidas, contato visual forçado, amizades poucas e mediadas por interesses, stimming discreto, rigidez vivida como necessidade de previsibilidade e interesses em temas socialmente aceitos que passam despercebidos; Lai e Baron-Cohen acrescentam exaustão após interação e problemas de emprego e relacionamento apesar de competências aparentes. É a população que a cláusula de mascaramento do critério C existe para alcançar.

O que a ciência diz

De Kanner à tríade e ao espectro

Kanner (1943) descreveu onze crianças com "solidão autista extrema" e "insistência na mesmice", e registrou sensorialidade e seletividade alimentar, dado que a nosologia só recuperou em 2013; os dois domínios atuais são, em essência, os dois traços de Kanner. Asperger (1944) descreveu quatro meninos com fala pedante, interesses intensos e desajeitamento motor, e uma continuidade com a normalidade que antecipa o espectro.

O passo decisivo foi o estudo populacional de Camberwell: entre cerca de 900 crianças conhecidas pelos serviços, 74 tinham prejuízo social grave (cerca de 21 por 10.000), contra 17 com o autismo estrito de Kanner (cerca de 5 por 10.000); em quase todas, o prejuízo social vinha acompanhado de prejuízo na comunicação e na imaginação, mais repetição. A tríade estruturou a CID-10 (1992), o DSM-IV (1994), o ADI-R e o ADOS. Dois anos depois Wing trouxe Asperger para dentro do contínuo, defendendo explicitamente que a diferença entre Asperger e Kanner era de grau, não de natureza. Rutter depurou Kanner para a definição operacional do DSM-III (1980) e separou o autismo da esquizofrenia infantil.

O ciclo DSM-IV/CID-10 e a categoria "transtornos globais (ou invasivos) do desenvolvimento"

O DSM-IV e a CID-10 (F84) agruparam cinco entidades: transtorno autista (F84.0), Asperger (F84.5), Rett (F84.2), desintegrativo (F84.3) e TGD-SOE/atípico (F84.1, F84.8, F84.9). "Invasivo" é a tradução brasileira de "pervasive". A categoria Asperger nunca funcionou bem: Volkmar e Klin mostraram que os critérios do DSM-IV eram quase impossíveis de cumprir, porque a regra de precedência do autismo excluía quase todos; os critérios de Gillberg, Szatmari, CID-10 e DSM-IV divergiam entre si. O grupo de Yale apostou num marcador neuropsicológico (perfil de transtorno de aprendizagem não verbal, QI verbal maior que de execução) que não se confirmou; Ozonoff, Pennington e Rogers (1991) encontraram teoria da mente melhor e função executiva igualmente afetada no subgrupo Asperger, distinção que estudos maiores não sustentaram. Szatmari, aplicando os critérios de validade de categorias, não achou diferenças estáveis entre Asperger e autismo sem DI.

O que mudou no DSM-5 (2013)

Cinco diagnósticos viraram um; a tríade virou díade (social e comunicação fundidos); o sensorial entrou nos critérios; o início antes dos 3 anos foi afrouxado; nasceram níveis de suporte e especificadores; e o Transtorno da Comunicação Social (Pragmática) ficou como "resíduo" para déficit pragmático sem critério B. A justificativa central foi empírica: os subtipos do DSM-IV não eram aplicados de forma confiável entre centros. O DSM-5 também passou a permitir o duplo diagnóstico com TDAH, proibido no DSM-IV, decisão que o conceito ESSENCE de Gillberg antecipara por outro caminho. A revisão de Leekam, Prior e Uljarevic sobre comportamentos restritos e repetitivos apoiou tanto a fusão social/comunicação quanto a manutenção dos RRBs como domínio próprio com o sensorial. O lobby da comunidade autista pela inclusão do sensorial é narrado por quem o fez.

Houve alerta de perda de sensibilidade: McPartland, Reichow e Volkmar (2012) previram que exigir três de A e dois de B poderia excluir adultos, mulheres e pessoas com QI alto; estudos posteriores mostraram perda pequena mas real, sobretudo de ex-TGD-SOE. Volkmar foi crítico público da mudança, e Wing, Gould e Gillberg (2011) propuseram ajustes por preocupação com mulheres e adultos.

DSM-5 para DSM-5-TR (2022)

Os critérios não mudaram. Mudou a redação de A ("all of the following"), a ordem do especificador médico/genético, e o texto descritivo: prevalência em torno de 1% a 2%, razão entre sexos próxima de 3:1 em estudos populacionais (contra os 4:1 históricos) com reconhecimento de subdiagnóstico em meninas e mulheres, camuflagem, incongruência de gênero, cultura, suicídio e transição para a vida adulta. A revisão global de Zeidan e colegas, fonte do "1%" da OMS, reporta mediana de 100 por 10.000, razão de sexo mediana de 4,2 e cerca de um terço com deficiência intelectual, com a ressalva de que a razão de sexo provavelmente está inflada por subidentificação de mulheres.

Diferenças entre os manuais

Segundo a CID-11: (1) a CID não tem níveis 1 a 3; estratifica por DI e linguagem funcional, mais objetivas, mas que não medem necessidade de apoio; (2) a CID não tem contagem mínima, o que dá margem a apresentações atípicas com risco correspondente de menor confiabilidade; (3) o sensorial aparece entre as manifestações, não como item obrigatório; (4) a CID trata o início com ainda mais flexibilidade e discute o diagnóstico adulto por história retrospectiva; (5) o CDDR traz seções sobre limites com a normalidade, cultura, sexo e gênero, convergindo com o DSM-5-TR; (6) o DSM tem o Transtorno da Comunicação Social, enquanto a CID trata o déficit pragmático dentro dos transtornos de linguagem (6A01.22), com exclusão mútua com o TEA. A estratificação por DI e linguagem foi lida por parte da comunidade como retorno velado à divisão "alto/baixo funcionamento", e por outra parte como mais honesta que os níveis.

Instrumentos e a defasagem com os critérios

O ADI-R é uma entrevista de 93 itens com o cuidador, 1,5 a 3 horas, que codifica o comportamento atual e o período de maior anormalidade (4 a 5 anos) e usa algoritmo com cortes em quatro áreas (social 10; comunicação 8 verbal ou 7 não verbal; repetitivo 3; início até 36 meses 1); foi construído sobre a tríade da CID-10/DSM-IV, não foi reformulado para a díade e não inclui itens sensoriais no algoritmo. O ADOS-2 é observação semiestruturada de 40 a 60 minutos, com módulo escolhido pela linguagem expressiva (T, 1, 2, 3, 4), algoritmo em dois domínios (Afeto Social e RRB) e Escore Comparativo de 1 a 10; o Módulo 4, para adultos, manteve o algoritmo de 2000 e tem base normativa pequena; o próprio manual reconhece que o sensorial praticamente não entra e que é um recorte de 45 minutos com um estranho. O manual da SBP compara sensibilidade e especificidade: ADI-R 52% e 84%; ADOS-2 94% e 80%; CARS-2 80% e 88%. A combinação ADI-R + ADOS + julgamento clínico é mais acurada que qualquer um isolado; as revisões de referência insistem que o diagnóstico é clínico, com os instrumentos como apoio, e os handbooks de avaliação lembram que escalas de rastreio têm alta sensibilidade e baixa especificidade.

Diagnóstico diferencial e coocorrência

O DSM-5-TR lista: síndrome de Rett (fase autística possível), mutismo seletivo, transtornos de linguagem e Transtorno da Comunicação Social, deficiência intelectual sem TEA, transtorno do movimento estereotipado, TDAH, esquizofrenia (sem delírios e alucinações no TEA; diferença de início), ansiedade, TOC (compulsões egodistônicas versus interesses egossintônicos), transtornos de personalidade esquizoide e esquizotípica em adultos, e transtorno de apego reativo. O CDDR da CID-11 traz lista semelhante. Para adultos, Lai e Baron-Cohen sistematizam os "rótulos substitutos" que bloqueiam a investigação: esquizofrenia, transtorno de personalidade (esquizoide, esquizotípica, borderline, com instabilidade e autolesão surgindo em autistas sob estresse crônico), ansiedade social (no autismo o déficit de habilidade precede o medo), TOC, psicose (concretude lida como delírio), TDAH e transtornos alimentares.

A coocorrência é a regra: cerca de 70% têm ao menos um transtorno mental coocorrente e cerca de 40% dois ou mais; TDAH em torno de 30-50%, ansiedade cerca de 40%, epilepsia 10-30%, distúrbios do sono 50-80%. Gillberg vai além: crianças que chegam a serviços antes dos cinco anos quase nunca têm um único transtorno, os sintomas dominantes mudam com a idade e o diagnóstico único feito cedo é quase sempre provisório. Os RRBs tampouco são exclusivos (crianças típicas pequenas, DI, síndromes genéticas, TOC, Tourette); o que distingue o autismo é combinação, intensidade e persistência.

O especificador de catatonia e o que não está nos manuais

Wing e Shah encontraram características catatônicas em cerca de 17% de 506 autistas com 15 anos ou mais encaminhados ao seu centro; o DSM-5 passou a permitir o especificador "catatonia associada a transtorno do neurodesenvolvimento", e Shah usa isso a favor do reconhecimento de um quadro que surge devagar, em adolescentes e adultos verbais, e é confundido com psicose. Já o perfil PDA (evitação patológica de demandas) não está no DSM nem na CID; a evidência aponta "sintomas, mas não uma síndrome", e a crítica autista o relê como evitação racional de demandas. A Comissão Lancet propôs o termo administrativo "profound autism" para pessoas de 8 anos ou mais com DI (QI abaixo de cerca de 50) ou linguagem mínima, estimando entre 18% e 48% conforme a amostra (26,7% das crianças de 8 anos num estudo posterior do CDC); o DSM não adota o termo.

O que os autistas dizem

A comunidade autista tem uma relação ambivalente com os critérios. Reconhece que eles dão acesso a diagnóstico e serviços, e fez lobby na revisão do DSM-5 pela inclusão do sensorial e pela unificação do espectro. Ao mesmo tempo, critica a linguagem de "prejuízo", "anormal" e "gravidade", e propõe substituir "sintomas" por "características", "comorbidade" por "condições coocorrentes", e abandonar "alto/baixo funcionamento", que esconde necessidades de uns e apaga capacidades de outros.

A crítica teórica mais importante ao critério A vem de Milton: a dificuldade de compreensão entre autistas e não autistas é uma ruptura mútua de reciprocidade, não um déficit localizado no autista; o manual descreve o autista, não a interação, e a maioria neurotípica define a própria falha de leitura como normal. Fletcher-Watson e Happé incorporam essa objeção ao avaliar as teorias que sustentam os critérios.

Sobre o Asperger, as vozes se dividem. Robison, diagnosticado aos 40, usou o rótulo como identidade e descreveu o diagnóstico como releitura biográfica, "de defeituoso para diferente"; depois de 2018 passou a discutir publicamente o legado de Hans Asperger. Beardon, aliado profissional, já em 2017 tratava Asperger e autismo como a mesma coisa (a distinção dependia de história de linguagem precoce, não de perfil atual), mas defendia respeito à identidade escolhida e recusava falar em "autismo leve". Com os trabalhos de Czech e Sheffer, muitos migraram de "Aspie" para "autista".

Sobre o diagnóstico adulto, a antologia da ASAN descreve o que a clínica não descreve: o "antes", anos de burnout e rótulos errados, e o diagnóstico como explicação que reorganiza a biografia. Price vai mais longe e defende a autoidentificação diante das barreiras de acesso, argumentando que os critérios foram calibrados em meninos brancos de classe média. Henderson, Wayland e White aceitam o DSM-5 mas reinterpretam cada critério com relatos de mais de cem autistas. O CAT-Q nasceu de relatos autistas, mas o paper original não estabelece ponto de corte e o instrumento não deve ser usado isolado para sugerir ou afastar autismo.

No Brasil, Tiago Abreu registra que o ativismo autista chegou tarde, nos anos 2010, em parte porque o diagnóstico adulto era raro antes do DSM-5 e porque o discurso psicanalítico dominava os serviços; as vozes de mulheres autistas brasileiras sobre camuflagem e diagnóstico tardio estão em obras de pequenas editoras.

Divergências e controvérsias

Contagem ou protótipo. O DSM ganha em confiabilidade e perde sensibilidade em apresentações atípicas; a CID-11 ganha flexibilidade e depende de treinamento, com menos dados psicométricos. Minha avaliação: para pesquisa e para contestar um laudo, a contagem do DSM é mais útil; diante de uma mulher adulta camuflada, a leitura prototípica da CID é mais fiel ao que acontece. Os dois convergem na díade.

Níveis de suporte ou DI e linguagem. Os níveis são pouco confiáveis entre avaliadores, variam com o contexto e são usados como régua de elegibilidade e, no Brasil, como "grau". Os subcódigos da CID descrevem combinações que importam para serviços e epidemiologia, mas não captam necessidade de apoio, saúde mental nem o fardo do masking em quem fica no 6A02.0 "como se fosse leve". Nenhum dos dois resolve; a Comissão Lancet pede que a avaliação vá além dos critérios e inclua funcionamento adaptativo, saúde mental e contexto.

O fim do Asperger. Volkmar resistiu; Attwood manteve o rótulo e a ideia de categoria separada; Wing, que criou o nome, nunca o defendeu como categoria e sempre defendeu o espectro. A evidência de validade externa não apareceu, e a pesquisa histórica mostrou cooperação de Asperger com o regime e encaminhamento de crianças ao Spiegelgrund, com a defesa de Falk rebatida ponto a ponto. Silberman, que havia retratado Asperger como protetor, reconheceu os achados; Donvan e Zucker haviam levantado a suspeita antes. Julgo a fusão correta nos dois planos, científico e ético, com um custo real: a perda de uma identidade que muitos adultos escolheram, e que merece respeito mesmo sem valor nosológico.

Sensibilidade perdida ou inflação diagnóstica. De um lado, a "geração perdida" de adultos não diagnosticados, com prevalência adulta próxima de 1% nos estudos ingleses e quase ninguém diagnosticado, e a literatura da apresentação sutil. De outro, clínicos que veem risco de falso positivo em adultos com trauma, TDAH ou ansiedade social, crítica dirigida a Price e, em menor grau, a Henderson; no Brasil, Assumpção defende leituras mais restritivas e critica o diagnóstico "por checklist". O CAT-Q está no centro: Fombonne e Williams questionam se camuflagem é mais que ansiedade social. Minha posição: os dois erros existem, e o antídoto para ambos é o mesmo, história do desenvolvimento colhida com cuidado e diferencial explícito, não ponto de corte em escala.

"Profound autism". Organizações de pais apoiaram; ASAN e a Global Autistic Task Force viram uma divisão funcional com outro nome, estigmatizante; críticos lembram que QI e fala mínima são instáveis na infância e que fala mínima não implica DI. O debate de linguagem de Bottema-Beutel e a resposta de Singer e colegas são a mesma disputa em outro registro.

Instrumentos calibrados no passado. ADOS-2 e ADI-R operacionalizam a definição de 1994, quase não medem o sensorial e têm sensibilidade menor em meninas, mulheres verbais e adultos que camuflam; um resultado "não espectro" no Módulo 4 não encerra a questão se há masking.

Na prática

Para um adulto autista

  • Leia o próprio laudo contra os critérios. Deve haver evidência dos três subitens de A, de ao menos dois de B (o sensorial conta), da presença precoce (com a cláusula de mascaramento se a história foi "normal" até a adolescência) e de prejuízo; e os especificadores e o nível por domínio devem estar registrados. Se o código é F84.5 ou F84.0, é CID-10; a conversão para 6A02.x exigirá reavaliar DI e linguagem funcional.
  • Nível 1 não é "leve" e 6A02.0 não é "leve": o manual diz que nível é necessidade de apoio, não grau nem QI, e Beardon lembra que um autista verbal e profissionalmente bem-sucedido pode ter sofrimento intenso.
  • Antecipe o diferencial: rituais egossintônicos (seus) versus compulsões egodistônicas (TOC); dificuldade social que precede o medo (autismo) versus medo com habilidade preservada (ansiedade social); história desde a primeira infância versus início tardio (psicose).
  • Decida cedo se e como envolver um dos pais: o ADI-R depende da memória do cuidador sobre os 4 a 5 anos, e pais autistas ou pouco atentos a marcos podem gerar falsos negativos. A NICE recomenda história de informantes "quando possível", não como condição.
  • Use o CAT-Q para nomear estratégias, nunca como teste; o AQ-10 da NICE tem sensibilidade questionada em quem camufla.
  • Se já acumulou rótulos (TOC, fobia social, TPB, bipolar), isso não é contraevidência: é o padrão descrito como rótulo substituto.
  • Se houver lentificação progressiva, dependência de prompts para iniciar ações e redução de fala na vida adulta, peça avaliação de catatonia antes de aceitar "psicose" ou "comportamento desafiador".

Para a criança autista (e para os pais)

  • Vigilância do desenvolvimento em toda consulta e M-CHAT-R/F entre 16 e 30 meses, com entrevista de seguimento para reduzir falsos positivos; não aceitar "vamos aguardar o tempo da criança". O diagnóstico é estável a partir dos 2 anos nas apresentações claras; o Módulo T do ADOS-2 não classifica antes dos 30 meses, devolve faixas de preocupação.
  • O que uma avaliação séria deve conter: história do desenvolvimento, observação em mais de um contexto, informação da escola, exame físico, avaliação de DI, linguagem, TDAH, ansiedade, epilepsia, sono e alimentação, diferencial com transtornos de linguagem, apego, surdez e negligência, e um perfil de necessidades com forças, dificuldades e sensorialidade. Exames genéticos só com dismorfias, DI ou história familiar; EEG só com suspeita de epilepsia; nenhum exame confirma autismo.
  • "Quando encontrar um, procure os outros": o rótulo inicial é hipótese, a hiperatividade aos 3 pode virar problema social aos 7 e humor na adolescência.
  • Sinais de alerta de erro: avaliador que decide por ADOS isolado; laudo com "grau" em vez de nível por domínio; diagnóstico de DI sem avaliar se a comunicação social está abaixo do nível geral (critério E); diagnóstico de "oposição" quando o comportamento é rigidez, comunicação ou sobrecarga.
  • Meninas: comportamentos repetitivos menos evidentes para os pais, interesses de aparência comum, mais camuflagem; os instrumentos foram calibrados em meninos.
  • Não deixe que a avaliação reduza RRBs sem entender a função: a revisão de referência alerta que eliminá-los pode remover estratégias de regulação.

Brasil

O código oficial para laudos, SUS, planos e leis é o da CID, mas os critérios usados na avaliação são os do DSM-5-TR. A migração CID-10 para CID-11 está em andamento sob coordenação do Ministério da Saúde; F84.0 e F84.5 seguem em laudos e carteirinhas, e a dupla codificação gera confusão. A Ciptea exige laudo com código CID, o que reforça o diagnóstico médico como condição de cidadania e deixa de fora adultos sem acesso a avaliação.

A Lei 12.764/2012 traz definição própria no art. 1º, espelhada no rascunho do DSM-5, mas com "ou" entre os dois critérios (o DSM exige ambos) e sem o perfil sensorial; a equiparação à pessoa com deficiência "para todos os efeitos legais" não exige laudo de "gravidade"; a Lei 15.256/2025 acrescentou diretriz de diagnóstico investigativo de adultos e idosos. A cobertura obrigatória de terapias pela ANS está ancorada administrativamente nos códigos F84 da CID-10, que a agência ainda não substituiu. A Linha de Cuidado do MS (2015) afirma que o diagnóstico definitivo só se firma após os três anos, que a identificação de risco deve ser precoce na atenção básica, e discute a "economia dos valores" do rótulo, que estigmatiza e dá acesso ao mesmo tempo; está baseada no DSM-IV-TR e não traz níveis de suporte nem CID-11. O manual da SBP (2019) organiza triagem, diferencial e instrumentos para o pediatra, cita a Lei 13.438/2017 (protocolos nos primeiros 18 meses no SUS) e ainda descreve Asperger dentro do TEA.

ADOS-2 e ADI-R têm adaptação brasileira pela Hogrefe CETEPP, com amostras normativas pequenas, custo e treinamento que os tornam raros no SUS.

Perguntas em aberto

  • Se os níveis de suporte não são confiáveis e os subcódigos da CID não medem apoio, qual estratificação deveria substituir os dois?
  • Camuflagem é um construto distinto de ansiedade social e competência social adquirida, e pode entrar formalmente nos critérios?
  • Como diagnosticar adultos sem informante, se o ADI-R pressupõe um cuidador e o Módulo 4 do ADOS-2 tem algoritmo antigo e base normativa pequena?
  • O autismo é fracionável em domínios com causas parcialmente independentes, e isso deveria mudar a díade?
  • Catatonia, shutdown, breakdown e burnout autista são o mesmo contínuo ou fenômenos distintos, e onde o especificador do DSM começa?
  • "Profound autism" é designação administrativa útil ou divisão funcional com outro nome?
  • Quando o Brasil completará a transição para a CID-11, e o que acontece com Ciptea, ANS e laudos escritos em F84 nesse intervalo?